ORGULHO DA CRUZ

Geralmente a palavra orgulho evoca algo ruim. O dicionário define orgulho como sendo a “manifestação do alto preço ou conceito em que alguém se tem; soberba ridícula. Brio” (PRIBERAM, 2013).

 

Mas embora as pessoas olhem essa palavra como negativa, em geral, nossa sociedade é a manifestação orgulhosa mais absurda da carne. Vivemos numa época de aparências onde todos querem ser vistos com coisas e desfilando seus “bibelôs” e “brinquedos” como crianças mimadas que provocam umas as outras. Sim, o orgulho carnal é uma manifestação de imaturidade, pois espera aplausos dos outros para se sentir digno de algo.


Entretanto, há um orgulho espiritual fruto da experiência profunda com Cristo e que não é produzida pela carne, mas pela alegria de pertencer ao Senhor. Paulo diz: “Mas longe de mim orgulhar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (Gálatas 6:14). Mas que orgulho é esse que o faz num instrumento de condenação e horror? Por que Paulo faz essa declaração?

 

Paulo estava confrontando os legalistas que queriam que os crentes da Galácia se submetessem à tradição judaica e às práticas legalistas para buscar uma autojustificação. Segundo os legalistas, se os crentes se submetessem às prescrições da lei mosaica eles conquistariam o favor de Deus. E assim, os falsos apóstolos tentavam induzir os crentes a negar a cruz de Cristo e conquistar a admiração dos homens. Mas esses que obrigavam a circuncisão, a guarda do sábado e outras prescrições o faziam apenas por causa de uma “[...] ostentação exterior”. É interessante que Paulo usa o vocábulo euprosôpêsai, ou seja, “desempenhar um bom papel, agradar, ter uma boa aparência”. Em outras palavras, ele está dizendo: “Aqueles que desejam ter uma boa aparência na carne”, isto é, tudo o que faziam era apenas para serem vistos e aplaudidos. Orgulho carnal.

 

Por isso Paulo diz que se tem algum motivo para se orgulhar, esse se encontra na cruz de Cristo. No grego temos três palavras para expressar o sentimento de orgulho: 1) kauchaomai, que significa “jactância, orgulho”; 2) hybris, que significa “insolência, arrogância, insulto, mau tratamento” e Paulo usa para referir-se aos maus tratos da perseguição sofrida (cf. 2Coríntios 12:10) ou como para descrever sua atitude arrogante diante do Evangelho antes da conversão (cf. 1Timóteo 1:13); 3) hyperêphanos, que significa “orgulhoso, soberba” e Paulo usa nas listas de vícios que descreve em suas cartas (cf. Romanos 1:30; 2Timóteo 3:2).

 

Paulo usa o primeiro termo kauchaomai e o mais interessante é notar que essa palavra no grego clássico – embora ela possa ser usada no mau sentido – também significa “orgulhar-se de uma pessoa ou coisa” (DITNT, 2000, p. 1064). Na tradução grega do Antigo Testamento Hebraico (LXX) essa palavra aparece, sendo usada para descrever o orgulho dos filhos em relação aos pais (cf. Provérbios 17:6) ou o orgulho de Deus e de Seus atos (cf. Salmo 5:11; 32:11; 89:16,17; 1Crônicas 16:28,29; Jeremias 7:14) e que geralmente é traduzido como “gloriar-se”. A diferença essencial entre os gregos e o Antigo Testamento é que do ponto de vista bíblico todo orgulho deve ser condenado, sendo uma expressão de tolice e impiedade (cf. Salmo 52:1; 94:4).


Olhando de forma mais ampla vemos que Paulo usa esse vocábulo deliberadamente para dizer aos gálatas que o problema deles era se orgulhar na ação humana quando deveriam se orgulhar na cruz. Por quê? Porque foi na cruz que Cristo se fez maldição por nós (cf. Gálatas 3:13) e encontramos somente Nele a felicidade perfeita. É na cruz que temos toda a demonstração do amor de Deus. Como nos diz o próprio Paulo: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se orgulhe [kauchêsêtai]” (Efésios 2:8,9).

 

Ou seja, em Cristo recebemos todas as dádivas espirituais para que não façamos uso da graça de Deus para glorificar a nós mesmos. Não há méritos da nossa parte; qualquer orgulho fora da cruz será uma pretensão humana de se achar digno da salvação (cf. 1Coríntios 3:21; 2Coríntios 11:18). O único orgulho digno do cristão está em Deus: “a fim de que, como está escrito: Quem se gloriar [kauchômenos], glorie-se [kauchasthô] no Senhor” (1Coríntios 1:31; cf. Jeremias 9:24).

 

E Paulo faz mais um destaque: “[...] pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo”. Sim nosso orgulho está em considerar esse mundo como perda por causa de Cristo (cf. Filipenses 3:8). Crucificar o mundo é tratá-lo com menosprezo e desconsideração. É na cruz que desaparece todo louvor próprio e nasce um gloriar-se em Deus e na Sua obra de salvação e graça. Sim, o orgulho do cristão é considerar-se morto para o mundo, numa clara declaração de que não lhe pertence mais, renunciando tudo que vem dele.

 

Que diferença o Evangelho da cruz do “evangelho pós-moderno” da autoafirmação! Enquanto hoje milhares de crentes buscam nas igrejas um “evangelho de autoajuda” que as faça se sentir melhor, o Evangelho da cruz se gloria naquele lugar de vergonha e horror, pois ali toda pretensão humana foi crucificada para que, crendo em Cristo, nossa realização pessoal e valor próprio residam apenas na graça bendita de Deus e não em nós mesmos. O cristão não precisa de nada externo que lhe faça se sentir mais valorizado. Basta à cruz e nada mais!

Autor: Gilson Souto Maior Junior
Pastor sênior da Igreja Batista do Estoril, Bauru/SP.

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