O EVANGELHO VIVIDO NA VIDA DO CRISTÃO

2 Jo 1-13

 

Concluídos nossos estudos na primeira carta de João, chegamos à segunda carta, escrita em folha de papiro de aproximadamente 13 cm por 22 ou 27 cm, tamanho médio das folhas daquele tempo. Uma pequena carta, então, quase um bilhete. 

 

A questão da autoria desta carta, assim como aconteceu na primeira e será idêntico na terceira, tem provocado reflexões no meio acadêmico. Raymond Brown, por exemplo, distingue ao menos quatro figuras na escola joanina de escritores, a saber: o discípulo Amado, detentor da fonte da tradição; o evangelista, que escreveu o corpo do evangelho de João; o presbítero, autor das epístolas e um quarto autor, este redator do evangelho.

 

Para fins deste estudo, manteremos nossa posição descrita no trato de 1ª. João e manteremos a autoria de João, discípulo de Jesus, como a mais provável.

 

A segunda carta tem um início bem comum para aquela época. O autor se identifica e depois apresenta as suas razões para escrever. Neste caso, o autor se intitula “O presbítero” ou “o ancião”. Pelo menos cinco exemplos diferentes de uso cristão primitivo do termo ancião nos são apresentados por Brown:

 

1.    senhor idoso, honrado, importante;
2.    autoridade da Igreja que, em grupos, eram responsáveis pela administração das igrejas locais no fim do 1º. Século;
3.    um dos doze apóstolos.;
4.    um companheiro de João, que não era um dos Doze e
5.    um discípulo dos discípulos de Jesus, a segunda geração de discípulos.

 

O Presbítero tem um assunto muito particular a tratar nessa carta: a hospitalidade dos missionários em viagem e o faz utilizando-se de menos de 300 palavras gregas. A carta é endereçada à senhora Eleita e a seus filhos. Vale uma pausa aqui para entendermos essa destinação.

 

McDowell entende que o autor disfarçou a identidade da Igreja a que a carta se destinava, a fim de proteger os membros contra a perseguição e prisão por parte das autoridades governamentais da época, pois a perseguição aos crentes já havia começado na província da Ásia. Com essa finalidade, utiliza-se do termo “eleita”, já bem conhecido pelos escritos de Pedro e de Paulo. A ideia de que se tratava de uma senhora, no sentido conhecido do termo, é descartada, pois a utilização dos pronomes no corpo da carta não confirma tal possibilidade.

 

O pano de fundo do assunto que João aborda é a disseminação do Evangelho. A ordem do Mestre havia sido: ide e pregai. E missionários se deslocavam para anunciar a salvação em Jesus.

 

O deslocamento, com a consolidação do Império Romano, era facilitado, já que estradas mais seguras e idioma comum permitiam a comunicação da mensagem que , para João, era mensagem da verdade. No entanto, pensões, diz Ramsay, ficavam a pequena distância de casas de má fama, eram sujas e infestadas de pulgas. Os missionários não encontravam ambiente adequado para o descanso.

 

Sendo assim, a hospedagem ficava sob a responsabilidade dos lares cristãos que, além de receberem os viajantes, ainda providenciavam o necessário para o deslocamento até a próxima parada. McDowell informa que se um missionário daquela época pedisse hospedagem em um lar cristão, o que ele ensinava deveria ser testado, para que pudesse ser aceito naquela casa. Se não apresentava evidências concretas do seu relacionamento com a verdade do evangelho, não deveria ser saudado e nem recebido, porque a pessoa que o hospedasse estaria anunciando a sua aprovação ao portador da doutrina falsa.

 

Penso que a atualidade da mensagem precisa ser destacada de imediato. Com quem nos relacionamos? A quem recebemos em nossas casas? A quais conversações damos ouvido? Com quais ideias nos envolvemos? Negar acolhida a determinadas causas não é falta de amor cristão. É deixar clara, evidente, a regra: o compromisso desta família, desta casa, desta igreja é com o Senhor Jesus, Filho de Deus, que veio em carne. 

 

A propósito, Stott adverte: “No movimento contemporâneo rumo à unidade da igreja, temos que ter cuidado para não comprometer a própria verdade da qual dependem o amor verdadeiro e a verdadeira unidade”.

 

O autor se utiliza, para apresentar a sua ideia e convicção, de três advertências:

1ª. advertência: acautelai-vos. “Acautelai-vos, para não perderdes aquilo que temos realizado com esforço, mas para receberdes completo galardão”. (v.8). Eles não poderiam relaxar a vigilância para que não se perdesse o muito trabalho executado até então. O pensamento aqui não tem qualquer indicação de perda de salvação, mas sim do resultado obtido pela execução de serviço fiel e dedicado.

 

2ª. advertência: não receber em casa o falso profeta. “Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa”. (v.11ª)

 

O alerta é com relação à hospedagem oferecida ao anticristo, aquele que é contra a mensagem de Cristo, nos moldes em que foi comunicada desde o princípio. Vimos detalhadamente este problema, quando estudamos a primeira carta. Plummer acrescenta: “a caridade tem seus limites; não deve ser demonstrada para com um homem de modo tal que prejudique seriamente outros”. Privar muitos da verdade do evangelho em troca do afago a uma determinada pessoa, eis a questão aqui.

 

3ª advertência: não dar boas vindas a falsos mestres. “nem lhe deis as boas-vindas. Porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das suas obras más”. (11b). Era como se o autor estivesse dizendo: “um difundido movimento de propaganda herética está em ação e pode chegar á cidade a qualquer momento”, diz Dodd. Era necessário ter cuidado.

 

Amados irmãos, falsos mestres falavam de si mesmo com orgulho, lembra Morris. Achavam-se adiantados, esclarecidos, pensavam que tinham conseguido avançar nos primórdios dos ensinamentos apostólicos. No verso 9 temos descrito o que faziam: “Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem tanto o Pai como o Filho”. O movimento era perigoso e se espalhava pelo mundo conhecido de então. Era necessário ficar em estado de alerta.

Ao terminar, pergunto: será que esta advertência tem sido seguida por nós? Dar acolhida a falsos profetas é também permitir que entrem em nossas casas e igreja via internet, via televisão, via rádio, via celular e etc. Pensemos nisso.

Apoio Bibliográfico: 


6.    GRUNZWEIF, Fritz et all. Cartas de Tiago, Pedro, João e Judas. Comentário Esperança. Curitiba: Paraná – Editora Evangélica Esperança, 2008.
7.    DRUMMOND, R.J., MORRIS, Leon. O Novo Comentário da Bíblia – vol. II. São Paulo: Vida Nova. Reimpresso em 1987.
8.    STOTT, John R. W. I.II, III  João – Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. SP: Mundo Cristão. 1985
9.    McDOWELL, Edward A.. Comentário Broadman. Volume 12. Rio de Janeiro: JUERP. 1987
10.    CARSON D. A. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova. 2009.
11.    BRAWN. Raymond. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas. 2004.

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