LEVÍTICO III – COSTUMES, PENAS E FESTAS (Levítico 21 a 27)

Introdução

Dentre os vários assuntos propostos para o presente estudo escolhemos Levítico 25.35-55, que aborda a questão da pobreza e das aflições decorrentes, bem como a conduta que os mais afortunados devem ter em relação àqueles em crise. Trata-se de um tema bastante atual, pois vivemos em uma cultura que estimula o ter mais do que o ser, adotando na maioria das vezes, um modelo ganha-perde. 

 

Nesse modelo, a fraqueza, limitação, descuido, desconhecimento ou ignorância do outro são vistos como oportunidades de ganho. Muitos não conseguem perceber que ganhos pontuais e circunstanciais obtidos à custa da desvantagem do outro, na realidade trazem uma grande perda para todos. É o caso dos aumentos de preço considerados abusivos, em épocas de grandes eventos ou de escassez, dos furtos diretos, da opressão ao endividado, dos juros excessivos ou da conduta de quem possui poder ou força e se apropria de ganhos que não lhe pertencem e pior ainda, quando em detrimento de outros.

 

Levítico 25 considera três níveis de problema ou situação do israelita antigo estabelecendo soluções ou condutas para cada uma delas. Nosso objetivo será compreendê-las e trazê-las para o nosso tempo atual.


1.    Pobreza temporária (Lv 35.35-38)

O primeiro tipo de situação se aplicava ao caso em que o israelita ficava temporariamente sem dinheiro ou alimento por conta de alguma situação inesperada como, por exemplo, a quebra de sua safra. Como poderia conseguir recursos de modo a manter a sua família até a próxima colheita? Nessa situação, um empréstimo com juros seria indesejável e não deveria ser cobrado, pois tenderia a perpetuar a pobreza e não resolvê-la. Não seria visto como um ato de ajuda, mas como um negócio e o credor não estaria manifestando a graça de Deus da qual era recipiente. Mostraria falta de compaixão do credor que vendo seu irmão em situação financeira crítica, estaria se aproveitando de sua vulnerabilidade para ganhar através dos juros. 

 

Como solução o empréstimo teria que ser sem juros e a dívida teria que ser cancelada no sétimo ano, sem garantia de ser paga. O objetivo era de ajudar o devedor a normalizar a sua situação financeira. 


2.    Sendo escravo do seu irmão (Lv 25.39-46)

O segundo caso se refere a um nível maior de severidade de crise como, por exemplo, o relatado em 2 Reis 4.1, em que uma mulher enviuvara e o credor pretendia levar seus dois filhos para servirem como escravos. Em situações desse tipo era previsto que o israelita devedor, se necessário, teria que vender-se para um irmão credor israelita de modo a poder pagar sua dívida. 

 

Nesse caso, o israelita “escravo” deveria ser tratado com dignidade como se fosse um “contratado”. Deveria ser pago ao final do dia (Dt. 24.15), a gentileza teria que ser genuína (Dt. 15.16-17) e o escravo teria que ser liberto no ano do jubileu conforme Lv. 25.39-41: 

 

“Quando também teu irmão empobrecer, estando ele contigo, e vender-se a ti, não o farás servir como escravo. Como diarista, como peregrino estará contigo; até ao ano do jubileu te servirá; Então sairá do teu serviço, ele e seus filhos com ele, e tornará à sua família e à possessão de seus pais”.

 

A lógica do ano do jubileu e da amenização no tratamento daqueles em condição de serviço para pagar dívidas, era que os israelitas haviam se tornado servos de Javé, que os havia liberto da escravidão do Egito. O devedor israelita, portanto não poderia ser servo de dois senhores (Lv.25.42-43).


3.    Sendo escravo do estrangeiro (Lv. 25.39-46)

É interessante notar que Levítico indica que um estrangeiro poderia prosperar em Israel. Está implícito também que um israelita poderia ir à falência. Isso significa que havia oportunidades e riscos para israelitas e estrangeiros. No caso do israelita se tornar devedor de um estrangeiro, e lei permitia que ele se tornasse escravo desse credor de modo a poder pagar a sua dívida. Essa é a única situação no AT em que um israelita poderia se tornar escravo.

 

Lv. 25.47-50 estabelece a possibilidade do devedor ser resgatado por um parente. Enquanto durasse sua dívida, ou até que fosse resgatado ou perdoado no jubileu, o israelita devedor teria que ser tratado com dignidade e sem violência (Lv.25.53). A experiência do Êxodo havia dado aos israelitas a exata dimensão da escravidão e da opressão.


4.    Quatro pontos sobre a pobreza

a)    O texto que ora estudamos indica que Israel deveria mostrar compaixão pelo pobre e oprimido de modo a imitar Deus. Javé mostrara compaixão pelo povo ao livrá-lo da escravidão no Egito. Os israelitas, portanto deveriam fazer o mesmo com seu irmão ajudando-o a se livrar do seu cativeiro pessoal e pobreza, trazendo-o de volta à sua própria terra, isto é, sua propriedade. Essa prática continua válida até hoje para o cristão. Este, liberto da escravidão do pecado pelo Messias de Deus, Jesus de Nazareth, deve estar disponível para ajudar outros a também se libertarem de seus cativeiros, sejam eles materiais, emocionais ou espirituais.

 

b)    Aprendemos também que a pobreza do israelita era vista como algo possível de acontecer mesmo Deus tendo prometido prosperidade para o seu povo. Provações e dificuldades fazem parte da vida do crente hoje. Jesus nos diz em João 16.33 que “...no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”.

 

c)    Muitas vezes tendemos a ignorar o necessitado e não ajudá-lo por achar que a causa de sua crise é o pecado ou a preguiça. Vale observar que no presente contexto a pobreza não tem como sua causa o pecado ou a preguiça, mas sim, uma situação realmente externa à capacidade da pessoa em resolver a crise, o que requer a ajuda de alguém.

 

d)    Lv 25.35 afirma que “... quando teu irmão empobrecer, e as suas forças decaírem, então sustentá-lo-ás, como estrangeiro e peregrino viverá contigo”. 


5.    Conclusão

Aplicar esses princípios hoje é um dos grandes desafios na vida da igreja local, que pretende seguir a Palavra de Deus em toda a sua inteireza. Importar-se com o outro, ter compaixão ou envolver-se com os irmãos que têm suas forças decaídas é certamente algo difícil de ser vivido no nível pessoal. 

 

O fato, porém é que quando isso ocorre, torna-se uma experiência transformadora tanto para quem dá quanto para quem recebe. Minha oração é que como pessoas e crentes, possamos fazer diferença no meio onde estivermos através não só do nosso testemunho, mas também da ajuda que viermos a proporcionar a quem precisar dela para poder se reerguer e seguir sua própria jornada.

Bibliografia:

“Leviticus: Sacrifice and Sanctification, Part III, Highlights in the History of Israel,
Taking Interest in Your Neighbor”
Robert L. Deffinbaugh, Th.M.  
The Biblical Studies Foundation 

 

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