DEUTERONÔMIO I – UMA VISÃO GERAL (Deuteronômio 1 a 13)

Introdução

O Deuteronômio, ultimo dos cinco livros do Pentateuco, possivelmente foi escrito por Moisés por volta de 1410 a.C. O livro mostra as bênçãos da obediência e a maldição da desobediência (Dt. 11.26-28). As vitórias da vida, a posse da Terra Prometida, a prosperidade e a felicidade dependem da obediência [1]. O livro conta a história de Israel no deserto finalizando com uma narrativa sobre o próprio Moisés e sua morte. Registra a transição da geração de israelitas que saiu do Egito e padeceu no deserto para a nova geração que vai entrar na Terra Prometia. Registra também a transição entre um povo de cultura nômade que morava em tendas para um que mora em casas e cidades [2]. Deuteronômio contém repetições de algumas partes da lei, recordações do que Deus havia feito pelo povo de Israel até então e instruções visando estabelecer princípios que norteariam os israelitas na entrada da Terra Prometida (Dt 4.1-2 e 5-8). Contém ainda uma renovação do Pacto feito por Deus com o povo de Israel. Na última parte do livro o autor registra suas palavras finais aos israelitas precedendo a entrada do povo em Canaã.

 

É comumente aceito que Deuteronômio pode ser dividido em três partes principais, formadas por sermões de Moisés, os quais devem ter sido pregados em um período de uma semana [2]. O primeiro sermão olha para o passado, o segundo para o futuro imediato ou para o alto e o terceiro, olha para o futuro mais distante.

 
As instruções 

Os profetas do AT frequentemente retornavam a Deuteronômio como seu ponto de referência [2]. É interessante notar também que esse livro parece ter sido a parte da Bíblia preferida de Jesus. Ele o tinha como um código de conduta [1]. Foi com citações de Dt 6.13; 6.16; 8.3 e 10.20, por exemplo, que o Salvador repeliu os ataques de Satanás narrados em Lc 4.1-13. Isso é uma indicação da utilidade prática desse livro para os dias de hoje.

 

Muitas das instruções encontradas no Deuteronômio, contudo permanecem como desafio para nós, em termos de compreensão e aplicação. Uma das questões mais difíceis de compreender, por exemplo, é Dt 7.1-5 e Dt 20.16-20, onde um Deus de amor e misericórdia instrui os israelitas a destruírem os cananeus. Deus teria realmente dado essa ordem ou Israel simplesmente inventou isso para justificar uma invasão e um massacre? Por que Deus não usou desastres naturais para afastar os cananeus daquela terra ao invés de mandar mata-los à espada e fogo? Para responder a essas questões inquietantes é necessário considerar algumas perguntas iniciais [3]: Quem eram exatamente os cananeus? Há outros casos desse tipo de ação na Bíblia? Pode-se identificar um padrão? Há incidentes semelhantes? Qual o real motivo? Seria simplesmente para desocupar a terra? Deus teria estabelecido limites para essas ações? Quais foram exatamente as ordens que o povo de Israel recebeu sobre esse tema?

 

Quem eram os cananeus?

Formavam uma civilização que antecedeu o tempo de Abraão. Por volta de 2900 a 2700 a.C. eram uma cultura avançada, com cidades urbanizadas com milhares de habitantes. Entre 2300 a 2000 a.C. essas cidades ou foram abandonadas ou destruídas [3]. Na época da conquista de Canaã pelos israelitas os cananeus estavam distribuídos por sete a dez nações com cerca de 30 reis. Possuíam uma cultura guerreira sendo dados a violências e intransigências diplomáticas. Possuíam cultos politeístas com práticas consideradas abomináveis o que incluía sacrifícios de crianças, incestos, homossexualismo, bestialidades, perversões sexuais e prostituição “sagrada” tanto masculina quanto feminina. Por volta de 1400 a.C. os cananeus haviam se tornado uma civilização extremamente corrupta e decadente. Suas práticas foram consideradas repugnantes e proibidas para Israel. Por conta delas Javé estabelece medidas severas de prevenção e isolamento para os israelitas possivelmente até visando evitar contágios de doenças entre o povo.

 

Houve precedentes?

A busca de casos anteriores, especialmente na história do Antigo Testamento, pode nos ajudar a compreender o ocorrido com os cananeus. Sodoma e Gomorra, o Dilúvio e a destruição dos amalequitas, este último episódio descrito em 1 Sm 15.2-5, são indicações de um possível padrão Bíblico para casos extremos de corrupção e maldade [3]. Cumpre ressaltar que em todos esses relatos, e antes da culminância das respectivas crises, esses povos tiveram acesso à verdade através de contatos diversos com homens de Deus por períodos que variaram de 25 a 400 anos. No caso de Nínive, (Jn 3.5-9) o povo se arrependeu e foi poupado. Nota-se que como elemento comum entre esses povos corrompidos, muitas de suas práticas eram perversas e públicas, sendo o aniquilamento, um consequente julgamento de Deus. Se houvesse inocentes, estes seriam livrados ou teriam o sofrimento minimizado. Pais tementes a Deus seriam poupados como ocorreu com Ló [3]. 

 

Outro ponto a considerar é que os cananeus conheciam Javé. Eles sabiam da chagada dos israelitas (Jos 2.10-14), e sabiam que Ele haveria de julgá-los. Poderiam ter mudado de rumo, mas não o fizeram.

 

O objetivo de Deus e os limites para as ações dos israelitas

O objetivo primário de Javé era expulsar (vomitar) os cananeus de Canaã de modo a minimizar sua influência maléfica sobre o povo de Israel (Lv. 18.25-30). O alvo era exterminar a nação e deportar o povo. Anos mais tarde, o povo de Israel também seria deportado para a Babilônia por conta de seus pecados contra Javé.

 

O texto Bíblico nos informa que os israelitas não deveriam destruir cidades e edifícios com exceção da capital Hazor (Jos. 11.10-11). Não deveriam destruir a vegetação (Dt. 20.19). Não poderiam ficar com objetos de culto (Dt. 7.25). Deveriam oferecer paz para as cidades fora de Canaã (Dt. 20.10). Havia restrições em como os israelitas tratariam as mulheres prisioneiras de guerra das cidades de fora (Dt 21.10-23). O objetivo era que o povo cananeu desocupasse a terra. A morte seria consequência de não sair [3]. 

 

Aplicações

Mesmo diante de um cenário histórico duro como esse creio que podemos encontrar algumas aplicações para nós hoje:

i.    Um primeiro ponto é que devemos ter muito cuidado em tentar assumir o papel de juiz dos atos de Deus. Não temos nem conhecimento, nem justiça própria e nem dados suficientes que nos permitiriam fazer um julgamento justo. Além disso, esse não é o nosso papel.

ii.    Deus sempre reina, mas por Sua opção, nem sempre governa processos. Esses por vezes são tocados de forma corrompida pelo próprio ser humano chegando a níveis tão abomináveis que acabam por requerer a intervenção de Deus. 

iii.    Apesar de Deus ser Alguém que executa sua justiça Ele é também um Deus de muitas oportunidades. Os julgamentos finais de Deus sempre foram precedidos de oportunidades de mudança. O problema é que em muitos casos a pessoa não muda e segue sua vida se afastando cada vez mais dos caminhos do Senhor.
iv.    Podemos hoje não ter o perfil abominável dos cananeus do tempo de Deuteronômio, mas também vivemos em uma sociedade corrompida e que requer mudanças. Como afirma a mensagem do Evangelho, essa mudança, antes de ser da sociedade como um todo, deverá ser uma mudança individual (que nem sempre acontece).

v.    Conhecer a cultura da época dos cananeus e suas práticas poderá nos auxiliar a compreender um pouco mais o que ocorreu. Entretanto, é provável que mesmo assim, teremos dificuldades para responder a todas as perguntas. Nesse caso, deveremos aceitar a Palavra crendo que mesmo sendo além de nossa compreensão, a justiça de Deus é justa e perfeita.

Meu desejo é que esses estudos de Deuteronômio sejam motivadores para que o prezado leitor ou ouvinte busque a instrução e a presença de Deus em sua vida, pois Ele é um Deus de oportunidades e de salvação.

Bibliografia:

[1 ] Estudo Panorâmico da Bíblia
 Capítulo 6 – Deuteronômio
Henrietta  C. Mears – Editora Vida

[2] From Creation to the Cross
Bob Deffinbaugh e outros
Lesson 15 — Israel’s Covenant Renewal 
The Book of Deuteronomy
www.bible.org

[3] How could a God of Love order the massacre/annihilation of the Canaanites?
Glenn Miller
http://christianthinktank.com/qamorite.html

 

FACEBOOK
TWITTER
Please reload

Publicações Recentes
Please reload

Tel.: (21) 2253-2849 / 2223-3288  |  E-mail: contato@ebaronline.com.br

© 2017 Escola Bíblica do Ar - Todos os direitos reservados.​

​Desenvolvido e customizado por MTV Developer - RJ/Brasil