AS CARTAS DE PAULO: PANORAMA GERAL

Para melhor compreendermos os estudos que se seguirão, uma boa ideia será nos aproximarmos dos registros bíblicos que nos contam a vida de Paulo. Nossa principal fonte de consulta é o livro de Atos e como leitura complementar o livro Épocas na Vida de Paulo, de A T. Robertson, publicado pela editora Juerp.

Saulo de Tarso foi um judeu criado rigorosamente no judaísmo farisaico. Não sabemos os nomes dos seus pais, mas percebemos a influência deles na formação de Saulo, principalmente da mãe que foi a responsável pela educação do filho até os 12 anos. Era com esta idade que os meninos judeus eram inseridos na sinagoga, onde passariam a aprender sobre o judaísmo. Em Atos 7,58 sabemos que Saulo tinha pelo menos uma irmã, porque lemos sobre o sobrinho vem ao encontro dele e corajosamente denuncia uma possível emboscada para o matar.

Provavelmente seu pai, cidadão também romano, era homem de posses porque mandou o filho estudar em Jerusalém, aos pés do grande rabino Gamaliel. Este era um privilégio que poucos jovens daquela época conseguiam ter e colocou Saulo no caminho natural para ser também rabino. Com Gamaliel, fariseu rigoroso mas que dialogava com a sociedade que o rodeava, Saulo aprendeu a gostar muito dos livros. Em 2 Tm. 4, 13 encontramos o apóstolo pedindo que lhe fossem levados os livros, porque sentia falta deles. Este item aparentemente sem importância foi essencial para a facilidade de comunicação de Paulo com os judeus, gregos e romanos.

Saulo amava o seu povo e se orgulhava de ser descendência de Abraão, como era costume entre os judeus. Em um dos seus discursos escritos à igreja em Corinto, ele pergunta: “são hebreus? Também eu. São israelitas? Também eu. São da descendência de Abraão? Também eu.” 2 Cor. 11,22.

Morava em Tarso até ir a Jerusalém estudar e depois voltou a Tarso. Nessa cidade, havia um grupo e judeus colonizados desde o ano de 171 aC. Poucos judeus puderam receber a cidadania romana e os que o conseguiram eram classificados como responsáveis por controlar os ritos religiosos e estavam identificados com o serviço da sinagoga.

Alguns autores tentam identificar a data do nascimento de Saulo. O ponto onde há mais concordância é quando se diz que ele deve ter nascido cinco anos após Jesus. Robertson nos ajuda quando diz que “não estaremos forçando os fatos se imaginarmos o menino João Batista nas montanhas da Judéia, o menino Jesus em Nazaré e o menino Saulo em Tarso, ao mesmo tempo.” Se percebermos o que estava acontecendo naquele momento histórico, nada mais nos resta além de louvor e adoração a Deus. Esses meninos iriam mudar o mundo e um deles era Deus. No plano de Deus, em situações diferentes, cada um contribuiu com a parte que mais tarde enxergaríamos como um todo: o plano de Deus para a nossa salvação.

João, parte de família sacerdotal, no deserto aprendeu a se preparar para os problemas que enfrentaria. Jesus, no humilde lar de Nazaré, trabalhou como carpinteiro até que, sendo batizado por João, iniciou seu ministério público. Saulo, em Tarso, cidade livre onde os judeus eram respeitados e podiam se relacionar com a influência greco-romana, aprendia com seu pai o ofício de fazer tendas e se aperfeiçoava na lei judaica. Três nomes essenciais para que hoje pudéssemos ter a paz completa em nossos corações.

Este pano de fundo para que possamos compreender as cartas que Paulo escreveu ainda não está completo. Falta-nos a parte mais importante. Porque conhecia muito sobre o judaísmo, Saulo de Tarso não aceitava que o homem Jesus, que havia sido crucificado, fosse o Messias. Ele cria com todas as forças do seu coração que o Messias seria um fariseu. No seu lar em Tarso, o pensamento dele não se ocupava de Cristo. Tinha outras coisas para fazer.

Ocorre que ele regressa a Jerusalém e lá talvez tenha sido um dos que discutia com Estêvão, o que viria a ser o primeiro mártir do Cristianismo. Em Atos 6,9 Lucas nos diz que “levantaram-se, porém, alguns dos que eram da sinagoga, chamada dos Libertos, dos Cirineus, dos Alexandrinos e dos da Cilícia e Ásia e discutiam com Estêvão.” Ainda que ele não estivesse nesse grupo, com certeza havia ouvido sobre o que aquele homem, cheio do Espírito Santo, falava.

O que sabemos de concreto é que Saulo foi um dos perseguidores ferozes da Igreja de Cristo. Em Atos 26,10 lemos Paulo confessando “dei meu voto contra eles, quando os matavam” e, em Atos 22,4 “e persegui este Caminho até a morte, algemando e metendo em prisões tanto a homens como a mulheres” Também, na qualidade de erudito, de rabi, deixou que outros matassem a Estêvão, enquanto lhes segurava a capa. Atos 8,1. Como conseqüência desse apedrejamento, muitos cristãos fugiram de Jerusalém e não havia mais a quem perseguir. Membro do sinédrio e zeloso da tradição que recebera, aproveitou-se do fato de ser um homem bem relacionado e conseguiu documentos que o habilitavam a prender e matar os que haviam fugido para as cidades vizinhas.

Agora sim. Aquele homem de grande cultura resolve ser o líder da perseguição aos hereges e, enquanto andava, com certeza o seu pensamento estava no desejo de eliminar o estrago que aquele homem Jesus havia feito. Damasco era uma cidade grande e antiga. Saulo gostava de cidades, ficaria feliz em poder atuar ali.

No entanto, ao meio-dia uma luz mais resplandecente que o sol brilhou ao redor dele e dos que o acompanhavam e os derrubou. Em seguida, ele e somente ele ouviu uma voz que fazia uma pergunta contundente: Saulo, Saulo, por que me persegues? Era a hora do acerto de contas. Jesus, o perseguido, vai ao encontro do perseguidor à busca de razões. “Eu sou Jesus, a quem tu persegues”. Atos 26, 13 e ss.

A história dessa visita na estrada de Damasco é contada e recontada diferentes vezes nas páginas do Novo Testamento. De forma incansável, Paulo a repetia como que se colocando na condição do pior pecador e a apregoar: se eu fui redimido, todos podem sê-lo. Aqui está o ponto culminante de toda a vida de Paulo: ele viu a Jesus, já ressurrecto. Ele se encontrou com o Jesus histórico vivo e se tornou na maior testemunha da ressurreição que o mundo já teve. Por que?

Porque ele estava preparado para compreender os mistérios do reino de Deus. Foi Paulo o intérprete de Jesus para nós e se hoje ouvimos falar de Jesus e somos incluídos na grande família de Deus, isto se deve a Paulo e à capacidade que recebeu do Senhor para compreender a Cristo de forma como nem mesmo os discípulos haviam feito.

Quando Paulo vislumbrou a glória de Jesus e se deparou com o olhar inquiridor: por que me persegues? ele ficou cego da vista, porque o seu espírito alcançou a luz. E isso nos conforta porque nos lembra que todas as experiências da nossa vida são importantes. Deus havia preparado um lar requintado para Saulo, porque mais tarde este diferencial seria importante. Deus permitiu que Saulo perseguisse a Igreja, para que ele compreendesse os mistérios da justificação pela graça e somente pela graça. Mas Saulo precisou passar pela experiência de conversão, para que pudesse ser usado.

Tempo houvesse e analisaríamos esse olhar de Jesus, olhar glorioso que buscou a Paulo, olhar que encarou Pedro, olhar que ainda nos busca. Não importa quão maus sejamos ou tenhamos sido, se nos deixarmos ser tocados pelo amor de Jesus, seremos  perdoados e transformados em baluartes de bênçãos para a Humanidade. 

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