A CARTA AOS GÁLATAS – UMA APOLOGIA PAULINA (Gálatas 1 e 2)

Quando nos aproximamos das cartas escritas por Paulo, enxergamos o efeito da graça de Deus em nossa vida. Estudar o que Paulo escreveu é aprender a enxergar a majestade do amor de Deus por nós, expressa na vida, obra, morte e ressurreição de Jesus. Ler Paulo é sentir o evangelho em sua dimensão completa.

Os cristãos que moravam na Galácia estavam passando por momentos difíceis. Porque deram ouvidos a falsos crentes, perderam a alegria que haviam conquistado quando se aproximaram do evangelho de Jesus Cristo e aparentemente haviam voltado às exigências da Lei, aqui representadas pela obrigatoriedade de cumprir a circuncisão para ser considerado um verdadeiro cristão. Este movimento vai ser objeto dos nossos próximos estudos, mas é necessário que identifiquemos, já na saudação da carta que Paulo lhes escreveu, indicativos de que haveria muito a ser consertado.

Paulo se identifica como apóstolo, termo que, nas páginas do Novo Testamento traz a idéia grega de homem enviado. O apóstolo detinha a importância de quem o havia enviado e exatamente por isto Paulo trata de identificar de quem recebera o seu apostolado: “Paulo, apóstolo não da parte de homens, nem por intermédio de homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos.”

Porque enviado por Jesus, que era o Filho de Deus ressurrecto, a saudação poderia ser “graça a vós outros e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”.  Paz é a tradução da palavra hebraica shalom. Esta saudação era usada nas cartas e também nos cumprimentos particulares. Se quisermos estender o significado desta palavra, seria como se uma pessoa estivesse perguntando a outra: como vai a sua paz?

Neste tipo de pergunta reflexiva, estaria inserido o desejo de que tudo estivesse bem com o interlocutor. Esta paz, que Paulo deseja, somente poderia ser conseguida pela graça de Deus. É porque a graça, favor sem requisito de merecimento, foi possível pelo ministério de Jesus que a paz poderia ser desejada. Nos dizeres de Guthrie, “a saudação hebraica shalom subentendia uma ausência de hostilidade entre duas pessoas ao se encontrarem. Para os cristãos, porém, a “paz” também envolvia um relacionamento certo com Deus. Os cristãos tinham paz uns com os outros porque gozavam de paz com Deus”, (p.68) o que é conseqüência da proximidade de Jesus.

A carta trataria de questões sérias, mas o desejo do apóstolo era de que houvesse graça e paz entre os cristãos da Galácia. Já nesta saudação enxergamos que todo e qualquer desentendimento que venhamos a ter não pode impedir a paz. Se violarmos este princípio básico, tudo o mais perderá o valor. Podemos discordar uns dos outros, mas é preciso que sempre possamos dizer: graça e paz. Se isto não for possível, é porque o nosso relacionamento com Deus precisa ser avaliado.

Certa vez, agendei uma entrevista com um pastor na cidade de Curitiba. Eu desejava conhecer a respeito do ministério radiofônico que ele exercia há anos. Oramos e, quando eu me preparava para fazer a primeira pergunta, ele disse: eu gostaria de saudar a irmã com a graça e a paz de nosso Senhor Jesus Cristo. Impossível descrever a santidade daquele momento. Com a saudação de Paulo aos Gálatas, aquele pastor tornou perceptível para mim a preciosa presença de Jesus entre nós. Será que o nosso coração está em condições de saudar aos que nos cercam com a “graça e a paz de nosso Senhor Jesus Cristo” não por hábito mas com pleno entendimento?

Se Paulo não estivesse plenamente em comunhão com Deus, seria impossível para ele tratar de assuntos tão sérios como os que viriam em seguida. Antes de qualquer coisa, ficava o testemunho de que com ele, apesar de contrariado, havia provisão para poder saudar aos gálatas com a graça e a paz daquele que o havia encontrado no caminho de Damasco e o comissionara para ser apóstolo.

Após a saudação, Paulo não se detém em meias palavras. Vai direto ao ponto, introduzindo o assunto com “admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo”. Em linhas gerais, havia na comunidade da Galácia judeus aparentemente convertidos ao cristianismo que exigiam que os gentios, ou seja, os não judeus, seguissem rigorosamente a lei judaica para poderem ser aceitos como cristãos. Paulo, fariseu rigorosamente criado dentro da Lei e que havia perseguido os cristãos baseado na Lei, não conseguia compreender como os gálatas permitiam que fosse colocado sobre eles um jugo que Jesus não determinara.

Não poderia haver outro evangelho, por que, então, davam ouvidos àqueles que os perturbavam? O verbo perturbar aparece aqui e também em Mateus 2,4; João 14, 1; Atos 15, 24, entre outras passagens e significa perturbar mentalmente, confundir, em sentido amplo, tirar a paz.

Paulo não se contenta em apenas denunciar o erro. Ele se propõe a argumentar, a partir da sua própria experiência: “faço-vos, porém saber, irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo.” Aqui o argumento cresce em força, porque os que haviam se infiltrado entre os gálatas eram pessoas, Jesus era Deus. Ele havia revelado ao apóstolo o evangelho que era anunciado por ele, Paulo, desde então.

Bom será se nos detivermos aqui de forma breve. A epístola da qual agora nos ocupamos traz mensagem que deve ser considerada em nossa realidade. A Igreja de Cristo tem sido invadida por preceitos que muito se assemelham aos que Paulo denuncia aqui. Se lá o nome do grupo dissidente era “os judaizantes”, em nosso século vemos os mesmos sintomas escondidos nos conceitos dos chamados “fundamentalistas cristãos”. Não será nosso propósito nos deter nos detalhes desse movimento, mas é suficiente dizer que o evangelho de Jesus Cristo tem sido desafiado por pessoas que, camufladas de crentes em Jesus, colocam exigências que entendem devam ser cumpridas pelos demais e ignoram a fé daqueles que as não cumprem. Estejamos atentos para isto.

O evangelho de Paulo pregava a emancipação da escravidão da Lei, interpretando de forma clara o que Jesus havia ensinado no Sermão da Montanha. O evangelho de Cristo ultrapassa a Lei e não é limitado por ela. Ficar atrelado a qualquer pré-requisito é desconsiderar a graça de Deus disponibilizada para todo aquele que crer. Esse suposto evangelho, que poderia ser um outro evangelho, Paulo se dispõe a ensinar por que é falso e vão. Não existe outro evangelho, só aquele baseado na graça de Deus.

Para tornar isso claro, passa a discorrer sobre a experiência da sua própria vida: “porque ouvistes qual foi o meu proceder outrora no judaísmo, como sobremaneira perseguia eu a Igreja de Cristo e a devastava. Quando, porém, ao que me separou antes de eu nascer e me chamou para a sua graça aprouve revelar Seu filho em mim, para que eu o pregasse entre os gentios...parti.”

Paulo possuía todas as razões para resistir à ordem de Deus, mas a graça que tomou conta dele foi tão convincente que nem considerou que iria pregar aos gentios, justamente o povo que os judeus desconsideravam. Simplesmente ele se levantou e partiu. Essa experiência não o abandonou jamais. Ao ver a glória de Jesus naquele caminho para Damasco, toda a cultura acumulada por tantos anos se rendeu à evidência da ressurreição de Jesus, aquele que capacitara Estêvão a morrer sorrindo, enquanto ele, Paulo, facilitava a que se atirassem pedras nele.

Nada poderia ser colocado entre a fé em Jesus e a graça de Deus. Coisa alguma seria maior do que a obra de Jesus. Naquele momento, morrera o escravo da Lei e nascera o servo de Jesus Cristo. Os crentes da Galácia podiam acreditar na suficiência do evangelho: “Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo, logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.”(Gl. 2, 19 e 20).

Graças demos a Deus porque permitiu que os crentes da Galácia enfrentassem aqueles problemas para que nós, tantos anos depois, sejamos instruídos sobre como resistir aos judaizantes de hoje. Que Deus para tanto nos capacite.


 

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