A AUTODEFESA DO APOSTOLADO (1 Coríntios 8 e 9)

Introdução:


Paulo desfila uma série de orientações sobre “comer coisas sacrificadas aos ídolos”. Aborda, com extrema destreza, o que representa o conhecimento e o uso da liberdade. Podemos concluir que o apóstolo prosseguia respondendo àqueles questionamentos dos crentes de Corinto. Eles haviam sido salvos e perdoados por Cristo Jesus, mas também conheciam o paganismo com todas as suas expressões cúlticas.


Cientes agora de que “aqueles deuses não têm existência real no mundo” (I Co 8.4), não lhes oferecem mais sacrifícios. Haveria razão para terem escrúpulos quanto a comprar carne nos açougues públicos? Se a idolatria transbordava da sociedade, poderiam eles participar das refeições em templos, ou mesmo em outro local associado a algum ídolo? Comparecer a esses banquetes fazia parte da etiqueta social! Não participar era fechar-se a muitos relacionamentos.


A partir dessa breve contextualização, observemos algumas colocações paulinas, relativas ao conhecimento, à liberdade, aos direitos apostólicos, à dedicação do servo e à qualidade do serviço cristão:

I – O cuidado com os escândalos – A orientação apostólica é de que não há mal em comer carne sacrificada.


Alguns, provindos desses cultos, teriam lembranças desagradáveis. Quem sabe haviam estado atuantes nesses serviços religiosos e teriam conflitos íntimos, trazendo-lhes lembranças desagradáveis. Ainda que não houvesse mal, argumenta que, por estar escandalizando os crentes fracos, o melhor a fazer era abster-se de comer.


A ponderação se devia ao fato de que o que é seguro para um homem, pode não ser para outro. Paulo fortalece o seu arrazoado, mostrando que não é o conhecimento, que muitos daqueles crentes se orgulhavam de ter, que deveria julgar a consciência de outrem, mas o amor.


Projetando esse foco, ele declara que ninguém tem o direito de impor a algum irmão qualquer coisa, que venha a causar prejuízo. A essência do conhecimento é identificar o um só Senhor, como, verdadeiramente, um só ser com o um só Deus. Já que todas as coisas vieram através do Filho (ver Cl 1. 15, 16; Jo 1.3), só temos existência por Ele. Tudo isso se constitui na nova vida em Cristo (II Co 5. 17).


II – O bom procedimento ético, diante dos não-crentes – Admitindo a existência de irmãos mais fracos, que não possuíam o pleno conhecimento de Cristo, Paulo conclui que alguns se sentiam mal, comendo desses alimentos.


Ele menciona o ingrediente “liberdade” como elemento constituinte fundamental para a vivência cristã. Não bastava o conhecimento, importava o uso que se fazia dele. Ele insiste em dizer que os fortes devem preocupar-se com os fracos. O avanço dos fortes não pode representar prejuízos aos fracos. A liberdade de um acaba, quando ameaça o direito do outro.


Ele propõe um compromisso ético por parte daqueles que conheciam mais, em não prejudicar o desenvolvimento dos menos habilitados.


Vivemos num mundo extremamente competitivo, onde “um passa por cima do outro, atropela”. O crente mais experiente deve tratar com cautela o irmão menor. Quando alguém de mais autoridade na igreja participava de uma dessas festividades, estimulava o crente mais fraco também a participar. Tal atitude do crente mais experiente é pecaminosa. Pecar contra um irmão, é pecar contra Cristo. Abster-se de comer carne, por conseguinte, era uma posição ética elevada, pois evitava o mau testemunho.


Viver com Jesus é viver diferente. O dever de um crente é levar sua cruz.


III – O direito dos apóstolos – cuidado para com eles – A alegação do descaso, com que era tratado, revelava a indignação do apóstolo Paulo. Ele não mencionava a eficácia do seu ministério, para exaltar-se. Estava consciente de que o louvor da obra está reservado ao Senhor. Precisava orientar, no entanto, aquela igreja, que ajudara a organizar e que estava sendo perturbada por equívocos ardilosos, semeados por homens que depreciavam o seu ministério e negavam a sua autoridade apostólica.


Parece que esta manifesta recusa amargurou tanto o coração de Paulo que podemos vê-lo, fazendo menção a sua trajetória vitoriosa, porém sob constantes dificuldades neste particular (ver Gálatas 1.1, 15, 16 e 17; 2. 6 - 9).


Paulo lembra aos coríntios que eles eram o selo do seu apostolado. Registra alguns descasos dos crentes para com ele (e até com Barnabé): 1-O direito de casar-se e levar a sua esposa nas viagens missionárias, conforme faziam quase todos os demais apóstolos; 2- Aborda o sustento do ministro que deveria comer as expensas da comunidade cristã. Observe-se a relação desse verso quatro, do capítulo nove, com a missão dos setenta e dois discípulos (Lc 10. 7,8); 3- Alerta para o fato dele e Barnabé sempre terem trabalhado, sem requerer o sustento que lhes era devido.


Quando tantos usurpadores, nos nossos dias, se autonomeiam apóstolos, por absoluta vaidade, a vida de Paulo proclama a sua autenticidade apostolar inconteste, por satisfazer os pressupostos bíblicos para a devida intitulação. Ele, dignamente, expressa um viver que exalta o Senhor Jesus Cristo.


IV – A dedicação do verdadeiro servo de Deus à obra – O fato do apóstolo Paulo exigir menos daquele grupo de irmãos, como merecia a sua elevada posição, conferia-lhe uma autenticidade apostólica maior, tornando-o melhor servo em Cristo. Paulo não somente declarava-se apóstolo, mas a sua abnegada dedicação à obra de Deus demonstrava isso. Ele é um servo de Deus assumido. Temos muito a aprender com esse homem de Deus. Ele se fez servo. Quantos aprendem muito mal o “abecedário”e julgam-se os tais, senhores de tudo e de todos. Precisamos aprender o “obedeçário” e entendermo-nos livres, para sermos verdadeiros servos do Senhor Jesus Cristo.


V – A estratégia de Paulo para melhor pregar o evangelho – Paulo se tornara versátil, para a glória de Deus. Buscava realizar de todas as maneiras a Sua obra. Livre, tornou-se escravo. Tornou-se judeu, para ganhar os judeus. Identificou-se como um fora da lei (com os gentios), para que estes se submetessem à lei de Cristo. Pareceu um fraco, para conquistar os fracos, fortalecendo-os no poder de Deus. Sentia-se, não um mero assistente, como muitos crentes costumam ser, mas era co-participante do evangelho de Cristo.


Conclusão:

Paulo entendia que a vida é uma batalha e que o bom soldado se prepara para a peleja. Via que essa preparação passava pelo domínio próprio. Sabia que tinha um alvo a alcançar. Antes de apontar as debilidades dos outros, policiava-se a si mesmo. Verificava, atentamente, para que a incapacidade em derrotar o inimigo, não fosse oriunda do seu próprio despreparo. O apóstolo Paulo era um atleta de Cristo, era um combatente capaz e leal. Se nos dobrássemos mais diante de Deus, poderíamos fazer mais para o Seu Reino. Com certeza, seríamos mais intolerantes com o pecado e teríamos mais compaixão para com os perdidos.

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