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AS PRIMEIRAS ACÕES NO MINISTÉRIO TERRENO (João 2)

O início do ministério terreno do Senhor Jesus estava vinculado ao cumprimento do ministério de João Batista. Era necessário que primeiro João, o Batista, realizasse a sua missão de ser o precursor do Messias, preparando-lhe o caminho e dando testemunho a respeito do Cristo, aquele que viria após ele, maior do que ele e de quem ele não se considerava digno nem de desatar as sandálias dos pés (Mateus 3:11; Marcos 1:7).

 

Uma vez atendido esse pré-requisito e após ter sido batizado por João Batista, tendo também vencido, triunfado, sobre as tentações de Satanás no deserto, Jesus se voltou ativamente para o início de seu ministério público. Neste sentido, sua providência inicial foi a chamada dos primeiros discípulos.

 

Nesta oportunidade, vamos nos ocupar de dois acontecimentos que marcaram o início do ministério público do Senhor Jesus: as bodas em Caná da Galileia e a purificação do templo.

 

Diz o texto bíblico que, após ter recebido a Pedro no grupo de discípulos, Jesus foi para a Galileia, onde Filipe e Natanael também se tornaram discípulos.

 

Três dias depois, provavelmente contados a partir do último acontecimento mencionado, que foi o chamado de Natanael, algo ocorreu na Galileia que pôs em ação o ministério de Jesus.

 

Em Caná, cidade de Natanael (João 21:2), houve um casamento. Ao relatar esse episódio, repleto de ensinamentos preciosos e significados espirituais, o texto bíblico de João 2 faz menção a duas situações que merecem ser ressaltadas: que “estava ali a mãe de Jesus” (v.1) e que “Jesus também foi convidado, com os seus discípulos, para o casamento” (v.2). Encontramos aqui uma lição que devemos seguir: convidar Jesus a participar de tudo aquilo que envolve a nossa vida é sempre uma boa decisão.

 

Jesus foi convidado. Foi convidado e compareceu. A aceitação do convite por parte de Jesus pode ser vista sob dois aspectos. Um tem sentido social, uma vez que rejeitar um convite para festa de casamento era considerado um insulto àquela época, como nos mostra a parábola das bodas em Mateus 22. O outro tem significados espirituais. Há muito a aprender sobre o que acontece quando Jesus se faz presente.

 

As festas de casamento do povo hebreu costumavam ser realizadas na casa do noivo. Eram festividades que se prolongavam por muitos dias, chegando a durar uma semana. Possivelmente, foi o que aconteceu com este casamento realizado em Caná. Os convidados deviam comparecer trajando roupas festivas, o que também é visto na parábola das bodas de Mateus 22. Um mestre sala tinha a responsabilidade de supervisionar a festa, de modo que os serventes deviam primeiro mostrar a ele o que seria servido aos convidados.

 

O episódio do casamento em Caná da Galileia é bastante conhecido e seria desnecessário relatá-lo por inteiro. Alguns elementos, no entanto, devem ser mencionados devido à importância que assumiram para o significado daquilo que ali ocorreu.

 

A certa altura da festa, o vinho que estava sendo servido aos convidados acabou. Para os costumes da época, além de ser uma situação seriamente constrangedora, o vinho terminar antes que a festa chegasse ao final, poderia afetar a reputação do anfitrião, no caso aqui o noivo.

 

A mãe de Jesus tomou conhecimento da situação que acabara de se instalar. Não sabemos se ela tinha alguma responsabilidade na provisão do serviço da festa, mas é fato que ela saiu em busca de solução para o problema do vinho que faltava.

 

Sua ação foi levar a Jesus a notícia do que estava acontecendo: “eles não têm mais vinho”. Feito isso, recebeu uma inesperada resposta de Jesus: “Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora”.

 

Algumas considerações sobre a resposta de Jesus são necessárias. O uso da palavra ‘mulher’ não representava um tratamento desrespeitoso, tão pouco grosseiro. Ao contrário, era uma forma honrosa de se referir a uma senhora. Evidência disso é encontrada no fato de que Jesus usou esse mesmo tratamento do alto da cruz, quando a recomendou aos cuidados de João.

 

A segunda parte da resposta – que tenho eu contigo?- mostra que Jesus estava lembrando à sua mãe que a partir daquele momento, quando Ele estava para dar início ao seu ministério público e mostrar ao mundo a sua missão redentora, designada pelo Pai, as suas ações estariam exclusivamente subordinadas a Deus, o Pai que o enviou. Situação semelhante havia ocorrido em Jerusalém quando, aos doze anos, Jesus se distanciou dos familiares em meio a uma viagem e permaneceu no templo, conversando com os doutores da lei. Ao ser encontrado e indagado por sua mãe, o teor da resposta foi o mesmo: “Não sabeis que me convém tratar dos negócios do meu Pai? (Lucas 2:49), sem que houvesse nisso intenção desrespeitosa. Os versos seguintes dizem que Jesus acompanhou os pais de volta para Nazaré, sendo-lhes obediente. 

 

Contudo, a mãe de Jesus insiste. Insiste ao dirigir-se aos serventes, dizendo-lhes que fizessem tudo o que Jesus dissesse. Ela sabia e confiava que Ele e somente Ele poderia resolver o problema.

 

Jesus, então, ordenou que enchessem com água as seis talhas de pedra que estavam ali, normalmente usadas para a purificação, cerimonial obrigatório que os judeus observavam em lavar as mãos antes de comer. Depois disso, deveriam levá-las ao mestre sala para a sua aprovação, já que tudo o que era servido na festa deveria passar por sua supervisão. Os serventes obedeceram, sabendo que aquilo que estavam levando era água.  No entanto, uma mudança aconteceu com a água tirada e, quando chegaram ao mestre sala, o que se encontrava nas talhas era vinho. Vinho excelente, da melhor qualidade.

 

Este foi o primeiro milagre realizado por Jesus. Diz o texto que “com isto deu Jesus início aos seus sinais, em Caná da Galileia, e manifestou a sua glória” (v.11). A transformação da água em vinho, contudo, guarda um significado espiritual. A antiga purificação dos cerimoniais judaicos foi substituída por algo melhor. O bom vinho representa o Evangelho que dá salvação pelo sangue de Jesus.

 

Alguns dias depois, Jesus foi para Jerusalém. O tempo da Páscoa estava próximo e Jesus foi participar da festa, como foi ensinado a fazer desde a infância. Era uma ocasião própria para o início, de forma pública, do seu ministério.

 

Lá chegando, dirigiu-se ao templo. Quatro pátios faziam parte da construção: o pátio das mulheres, o pátio de Israel, o pátio dos sacerdotes e, na parte externa, o pátio dos gentios. Este era o único espaço onde pessoas de todas as nações, aqueles que não são judeus, podiam entrar para prestar culto e adorar a Deus.

 

O que Jesus encontrou, quando lá chegou, era chocante. Vendedores oportunistas haviam transformado o pátio dos gentios num mercado para a venda de animais usados no culto de sacrifício: bois, ovelhas e pombos. A facilidade de comprar os animais nas proximidades do lugar de culto certamente atraía os compradores.  Não bastando, cambistas também faziam uso do local, atendendo à conveniência de visitantes que precisavam trocar o dinheiro que traziam por moedas judaicas.  A profanação do templo de Deus estava instalada.

 

Tomado por forte indignação, Jesus fez um chicote de cordas e passou a expulsar todos eles do templo, inclusive os animais; espalhou o dinheiro dos cambistas e derrubou as mesas. Uma reação surpreendente, mas com forte significado espiritual.

 

Ao reagir assim, Jesus dá cumprimento profético ao Salmo 69:9 que diz: “O zelo da tua casa me consumiu”, lembrado pelos discípulos que presenciaram a cena e recitaram o salmo passando o verbo para o futuro: consumirá. A profanação do templo do Senhor, lugar sagrado de culto e adoração a Deus, não poderia ser tolerada. Outra razão, de extrema relevância, vem de Isaías 56:7 que profetizou sobre os estrangeiros que se chegassem ao Senhor para servi-Lo e amarem o nome do Senhor, dizendo: “a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos”. O espaço destinado aos gentios estava sendo utilizado para fins de comércio, impedindo o culto de pessoas de todas as nações.

 

Outra consideração que podemos fazer sobre a reação de Jesus é que o método utilizado talvez tivesse finalidade educativa. A força da correção precisava corresponder à gravidade da falta cometida, de modo que o povo entendesse que o templo do Senhor é lugar sagrado.

 

Uma lição necessária aos servos de Deus de todos os tempos. Sejamos nós também zelosos em preservar a reverência devida à Casa do Senhor.

 

CONSULTA BIBLIOGRÁFICA

 

BRUCE. F .F. João, Introdução e Comentário.

São Paulo: Edições Vida Nova, 1987.

 

DOUGLAS, J.D. O Novo Dicionário da Bíblia. 2ª ed.

São Paulo: Edições Vida Nova, 1995.

 

MACLEOD, A. J. João, in O Novo Comentário da Bíblia, Vol. III.

São Paulo: Edições Vida Nova, 1963.

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