A VIDA DE JÓ – Princípio e Fim (Jó 1, 2 e 42)

Os Livros Poéticos é o tema desta série de estudos bíblicos. Estaremos estudando os livros de Jó, Provérbios e Cantares de Salomão, ao longo de treze lições.

Sendo assim, este estudo, o primeiro de toda a série, recebe o título de A Vida de Jó – Princípio e Fim.

Algumas considerações iniciais a respeito do livro de Jó merecem atenção, antes que o estudo se detenha em sua vida. Composto por três partes principais – prólogo (capítulos 1 e 2), discursos (capítulos 3 a 42:6) e epílogo (capítulo 42:7-17), em que prólogo e epílogo foram escritos em prosa e os discursos escritos originalmente em versos de poesia hebraica, Jó se inclui entre os livros poéticos da Bíblia Sagrada.

Mais que uma narrativa, o livro oferece-nos profundo ensino teológico sobre o relacionamento com Deus, com base na experiência de um homem chamado Jó. Fala-nos sobre o sofrimento, sim, mas, sobretudo, fala-nos sobre o amor ao Senhor e da fé em Deus. A fé que independe das circunstâncias, uma vez que está firmada no conhecimento de quem Deus é e do que Ele pode fazer.

Assim, o livro de Jó não tem por finalidade explicar as razões ou as causas do sofrimento humano, ainda que esteja abordando este assunto de forma predominante em suas páginas. Antes de tudo, o livro é uma proclamação teológica da grandeza de Deus, de seu poder e de seu amor.

Como se dá em toda a Bíblia, o livro de Jó aponta para Jesus Cristo. De forma especial, pela fé e esperança de Jó numa existência futura, ao declarar: “Eu sei que o meu Redentor vive” e “depois de destruído este meu corpo, ainda verei a Deus” (Jó 19:25 e 26). Ele aguardava confiantemente por um dia vindouro em que Alguém se levantaria sobre a terra para defender a sua causa e redimir a sua vida. Esta esperança tem o seu cumprimento em Jesus, o Messias.

A citação do nome de Jó em Ezequiel 14:14 e 20, em associação com Noé e Daniel, e em Tiago 5:11, dão base à inferência de que sua história é real.

“Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó”, assim começa a narrativa de sua vida.

Homem sincero, reto e temente a Deus, desvia-se do mal (1:1), de tal modo que, em seu tempo, ninguém havia na terra semelhante a ele. Não era perfeito, nem isento de falhas e pecados, mas destacava-se por seu propósito e empenho em viver de forma honesta e correta diante de Deus e dos homens. Praticava o que era certo e rejeitava o que era errado. Homem com qualidades de caráter dignas de serem imitadas e de integridade inquestionável, uma vez ter sido afirmada pelo próprio Deus: “E disse o Senhor a Satanás: observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem sincero e reto, temente a Deus, desviando-se do mal” (1:8). Que assinatura mais confiável pode haver para um atestado de boa conduta, de integridade moral e espiritual?

Chama-nos a atenção o fato de que foi Deus quem definiu a Jó como reto e íntegro. Considerando que a integridade genuína de Jó é essencial ao significado do livro, ressaltá-la é de máxima importância à mensagem que apresenta.

Jó levava a vida espiritual e o relacionamento com Deus a sério. Esta característica fica ainda mais evidente pela preocupação demonstrada com a condição espiritual de seus filhos. Após as reuniões familiares festivas, levantava-se de madrugada para oferecer holocaustos por eles, receando que tivessem cometido pecados. Levantar-se de madrugada não indica necessariamente o horário em que isso era feito. Trata-se apenas de uma expressão idiomática hebraica, usada para caracterizar o zelo com que uma atividade era realizada. Jó fazia isso continuamente porque dizia: “Porventura pecaram meus filhos e blasfemaram de Deus no seu coração” (1:5). A propósito, este é um exemplo a ser seguido: orar continuamente pela vida espiritual dos nossos familiares; seja pela salvação dos que ainda não receberam a Cristo, seja pela santificação e crescimento espiritual dos já convertidos a Jesus.

Homem próspero em muitos aspectos, a vida de Jó transcorria num contexto imensamente seguro, o que fazia dele o maior de todos os homens do Oriente (1:3). Foi abençoado com dez filhos, dos quais sete eram homens e três eram mulheres. Tinha amigos. Era homem de grande riqueza material e alta posição social. Tudo à sua volta contribuía para a sua felicidade e tranquilidade, até que o cenário que o cercava começou a mudar.

A dramática mudança que veio a ocorrer não se deu por acaso. Foi promovida por Satanás, com a permissão de Deus.

Tudo começou num dia em que os anjos, chamados no texto de ‘filhos de Deus’, foram à presença do Senhor. Satanás também se apresentou entre eles. Deve tê-lo feito como um intruso, uma vez ter sido indagado por Deus a respeito de aonde vinha. Resposta imediata: “de rodear a terra e passear por ela” (1:6 e 7).

Tendo ouvido o Senhor enaltecer o caráter íntegro de Jó, Satanás reagiu com uma insinuação petulante. Pôs em dúvida a sinceridade de Jó, acusando-o de servir ao Senhor por interesse nas bênçãos que recebia e não por verdadeiro amor e fé genuína. Desconsiderou que, se fosse assim, a devoção de Jó não seria aceita, porque o Senhor não se agrada de adoração artificial e fingida, antes procura por aqueles que o adorem em espírito e em verdade (João 4:23). Insolente, sugeriu a retirada das bênçãos, presumindo que em faltando a provisão divina certamente Jó não hesitaria em “blasfemar de Deus na face”, disse ele no cúmulo de sua audácia.

Sabemos que, em razão de sua onisciência, Deus não depende de demonstrações práticas para saber o que se passa no íntimo de quem quer que seja. Sendo conhecedor do coração sincero de seu servo, o Senhor aceitou o desafio e consentiu que Jó fosse submetido à prova por Satanás.

Uma única restrição foi estabelecida pelo Senhor: que Satanás não tocasse em Jó. Tudo o mais que ele possuía ficou à disposição das provações que iriam se suceder.

Satanás não perdeu tempo. Diz o texto bíblico que ele saiu da presença do Senhor (1:12) e então sucedeu (1:13) que notícias trágicas começaram a chegar. Nesse ponto, vale ressaltar que somente nós, os leitores da Bíblia, sabemos os motivos dos acontecimentos seguintes. Jó nada sabia a respeito do diálogo entre Satanás e Deus.

De repente, de um momento para o outro, tudo lhe foi tirado: os rebanhos, os empregados e até os filhos e as filhas. A forma como as notícias chegaram também merece destaque: um mensageiro ainda estava noticiando uma das tragédias e alguém chegava com outra comunicação desoladora, sem que ele tivesse tempo para assimilar a informação anterior. Quatro vezes, sucessivamente.

A essa altura, Satanás deveria estar na expectativa de que ouviria a presumida blasfêmia contra o Senhor.

Então Jó apresentou a sua resposta. Notável resposta. Humanamente surpreendente. Ele se levantou e rasgou o seu manto, sinal de dor e luto, porém lançou-se em terra e adorou. Exatamente isso: adorou ao Senhor. Ao lançar-se em terra, não o fez por desespero, porém em atitude de humildade e submissão ao Senhor. E ainda disse: “Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!” (1:20-21).

Jó estava aprovado. Ele não atribuiu a Deus falta alguma (1:22); não blasfemou do Senhor, antes o exaltou e o adorou.

Mas a provação não terminou aí. Um segundo episódio aconteceu. À semelhança do primeiro, Satanás compareceu à presença do Senhor junto com os filhos de Deus. Mais um diálogo se estabeleceu entre ele e o Senhor a respeito da integridade de Jó, nos moldes do primeiro. Desta feita, a proposta maligna foi para que a prova atingisse o corpo físico de Jó: pele, ossos e carne. Ele não resistiria e aí, sim, a blasfêmia contra o Senhor aconteceria (2:1-6), supunha Satanás.

Permissão concedida, com a condição de que a vida lhe fosse poupada. Mais uma vez, Satanás saiu da presença do Senhor e rapidamente começou a agir, ferindo a Jó com “tumores malignos da planta do pé até ao alto da cabeça” (2:7).

Não bastasse estar irreconhecivelmente desfigurado, tomado por úlceras inflamadas que se abriam e supuravam, suportando fortes dores, Jó ainda teve que enfrentar a provocação de quem menos esperava: a esposa. Em vez de consolá-lo, agiu como instrumento de tentação, sugerindo que ele fizesse exatamente aquilo que Satanás esperava dele: amaldiçoar a Deus. Talvez considerando que a morte fosse a única forma de alívio que restasse a ele, acrescentou outra sugestão que, se realizada, implicaria em suicídio (2:9).

Jó rejeitou as sugestões. Mais uma vez apresentou notável resposta: “temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (2:10). Diz a Bíblia que “em tudo isto Jó não pecou com os seus lábios” (2:10).

Em meio à provação que se prolongou, recebeu a visita de três amigos que passaram a acusá-lo de ter pecado para que tamanho infortúnio lhe tivesse alcançado. Ele contestou as acusações firmemente. Ainda que se queixasse do enorme sofrimento, manteve a sua integridade, inclusive diante do silêncio de Deus.

O principal aspecto da prova estava vencido: Jó permaneceu amando a Deus e mantendo a fé na bondade do Senhor, mesmo estando destituído de todos os seus bens, família e saúde. Através de Jó, ficou provado que é possível alguém amar a Deus tão somente pela Pessoa que Deus é.

Por fim, o próprio Senhor rompeu o silêncio (38:1). Não acusou Jó de pecado algum. Também não lhe deu explicações diretas sobre o seu sofrimento, como tantas vezes Jó pedira. O Senhor respondeu apresentando-se a si mesmo como Deus de sabedoria e poder. Isso foi suficiente para Jó. O bem mais precioso de sua vida estava preservado: o relacionamento com Deus.

Depois disto, o Senhor restituiu a Jó, em dobro, tudo o que antes possuía. Devolveu-lhe a saúde, os bens e também a família, dando-lhe sete filhos e três filhas, de modo que seu último estado foi ainda mais abençoado do que o primeiro (42:10-17). Jó teve longevidade, vivendo mais cento e quarenta anos e vendo a sua descendência até a quarta geração. Morreu velho e farto de dias (42:17).

O resultado final: Jó foi aprovado, o Senhor exaltado e Satanás envergonhado.

Que o Senhor veja em nós aquilo que via em Jó: integridade, retidão, fé, amor e temor a Deus. Amém.

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