Estudos no Livro de Jó – Argumentos e Contra-Argumentos - Texto – Jó 22 a 31

A razão do sofrimento humano. O tema continuou em discussão entre Jó e seus amigos, gerando um terceiro ciclo de discursos. Desta feita apenas com a participação de Elifaz e Bildade. Sem que haja uma explicação clara para o fato, Zofar não aparece neste terceiro momento.

Pouco se tem de novo. A integridade pessoal que Jó defendia insistentemente contrariava o pensamento teológico de seus amigos. Para eles, era inadmissível a ideia de que um homem bom pudesse sofrer. As causas do sofrimento deveriam ser encontradas no próprio homem. Se isso estava acontecendo com Jó é porque alguma culpa se achava nele.

Preso a este princípio, Elifaz deixou o estilo das insinuações indiretas e passou a fazer acusações abertas a Jó: “Porventura não é grande a tua malícia, e sem termo as tuas iniquidades?”. Embora bem intencionado, pois acreditava que Jó precisava ser confrontado com o seu pecado para que se arrependesse e fosse restabelecido, acabou por usar de acusações injustas, listando faltas específicas que Jó não cometeu e omitindo o bem que praticou. Como não conseguiu encontrar nenhuma falha de Jó no âmbito da vida espiritual e religiosa, nem da devoção a Deus, voltou a sua atenção para os deveres sociais e o relacionamento com o próximo. Acusou Jó de ser desumano e de personalidade contraditória. Em seu julgamento, supunha que, além de não socorrer ao desvalido e necessitado, Jó ainda retirava do pobre o pouco que possuía, enquanto favorecia o forte (22:6-9). Esse pecado deveria ser a causa de sua calamidade (22:10).

Jó nunca falhou em relação a esses aspectos, porém não respondeu às acusações de imediato. Guardou silêncio por um tempo. Mais adiante, no capítulo 31, foi que apresentou a sua defesa, declarando-se inocente quanto a essas faltas.

Mas não foi só isso. Elifaz fez outra acusação equivocada. Julgou que Jó estaria interpretando erradamente o fato de Deus estar acima das alturas do céu como sinal de que se ausentou do mundo, não podendo ver o que se passa aqui. Sendo assim, não haveria a fiscalização divina para os assuntos terrenos (22:13-14) e, por isso, Jó estaria andando pelo caminho dos ímpios até a perdição (22:15-16). Ocorre que Jó nunca disse isso. Tal acusação era uma deformação à posição de Jó que, ao contrário disso, sempre se sentiu debaixo do olhar de Deus e por Ele afligido sem que, contudo, pudesse vê-lo.

Em suas convicções, Elifaz fez boas recomendações a Jó, todas com fundamento bíblico: que se reconciliasse com Deus e se convertesse ao Todo-Poderoso, afastando-se da iniquidade. Ele deve tê-las feito com sinceridade e evocou as bênçãos que disso resultam (22:21-30), entre as quais se encontra ter as orações ouvidas. É verdade que a Bíblia contém muitas promessas a esse respeito e que a reconciliação do pecador com Deus é o melhor caminho a ser seguido. A paz genuína é encontrada por meio de um humilde retorno do homem para Deus. O equívoco de Elifaz foi que essa situação não se aplicava a Jó. Ele deve ter esquecido que Jó sempre teve todas essas coisas em consideração e as observava no seu relacionamento com Deus.

Terminado o discurso de Elifaz, Jó falou. Não apresentou nenhuma resposta às falsas acusações recebidas. Usou da palavra para fazer uma exposição emocionante e bela de sua confiança em

Deus, a quem apresentou como o Deus da graça, e a quem ele desejava ardentemente encontrar: “Ah! Se eu soubesse onde o poderia achar!” (23:3). Assim acontecendo, Jó poderia expor a sua causa, certo de que Deus não contenderia com ele, antes compreensivelmente o atenderia e ele poderia saber o que Deus tinha a lhe dizer sobre a sua situação. A firmeza de sua confiança na graça de Deus pode ser vista pelas palavras que usou: “Acaso segundo a grandeza de seu poder contenderia comigo? Não; antes me atenderia” (23:6). De modo semelhante ao que disse o apóstolo Paulo em II Timóteo 1:12, Jó parecia estar dizendo: “porque eu sei em quem tenho crido”.

Uma frustração, no entanto, acompanhava o seu desejo: ele não conseguia perceber a presença de Deus (23:7-9). Naquele momento, Deus ainda lhe parecia inacessível. Uma sensação que, por vezes, todos nós experimentamos, ainda que saibamos que “perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade”, como nos assegura o Salmo 145:18. Contudo, a dificuldade de perceber a presença de Deus não tirou dele a certeza de que o Senhor conhecia o seu caminho, nem a segurança de que se viesse a prová-lo ele sairia aprovado (23:10).

Embora pareça arrogância de sua parte, havia uma razão que servia de base à sua autoconfiança e ele a apresentou: “Os meus pés seguiram as suas pisadas; guardei o seu caminho, e não me desviei dele. Do mandamento de seus lábios nunca me apartei, escondi no meu íntimo as palavras da sua boca” (23:10-12). Jó não estava se declarando um homem perfeito, mas afirmando que sempre zelou por obedecer aos preceitos de Deus e por guardar a sua integridade, no íntimo e no proceder. Foi assim que Jó respondeu a Elifaz.

Bildade tomou a palavra. A forma abreviada de seu terceiro discurso parece indicar que a discussão estava caminhando para o final. Mudou o seu estilo de argumentação, conduzindo o assunto para a grandeza e a soberania de Deus, diante das quais nenhum homem, comparado por ele a um verme, pode prevalecer ou apresentar-se como alguém de valor, dada a sua insignificância. Jó sempre esteve de acordo com esse pensamento. A diferença se dava na forma de compreensão que cada um tinha desta realidade. Jó compreendia que é exatamente por ser infinito que Deus pode voltar-se para o homem e lhe dar atenção.

A resposta de Jó ao breve discurso de Bildade é considerada como uma esplêndida exposição dentro do livro, superada somente pelos discursos do Senhor que se encontram mais adiante. Ele a formulou em duas partes. Na primeira, usou de ironia para declarar a inutilidade do discurso de Bildade: “Como sabes ajudar ao que não tem força! e prestar socorro ao braço que não tem vigor! (26:2-4). Depois, prosseguiu fazendo uma eloquente descrição da soberania e do poder de Deus manifestos na criação (26:5-14). Uma cuidadosa observação desta exposição revela que Jó já estava preparado para ouvir o que Deus iria lhe dizer mais à frente (38-41), considerando que este mesmo tema da criação foi utilizado na resposta do Senhor a Jó.

Dando prosseguimento ao seu discurso, o mais longo pronunciamento de um único homem em todo o livro, Jó pôs em pauta muitos aspectos de grande relevância. Demonstrou reconhecer a justiça de Deus no julgamento final da vida dos ímpios, sem que isso indicasse contradição ao seu posicionamento anterior. O desacordo com os seus amigos estava na insistência deles em considerar a sua tribulação como ato de justiça divina em sua vida, sendo ele inocente. Lembrou, com riqueza de detalhes, do seu primeiro estado em que era próspero e feliz (29:1-25) e lamentou a miséria em que se encontrava (30:1-31). Declarou mais uma vez a sua integridade, mencionando inclusive os seus atos de bondade para com os necessitados, numa forma de defesa às acusações que Elifaz lhe fizera um pouco antes (31:1-40).

Digna de nota é a certeza de Jó a respeito de sua integridade. Ele chegou a dizer: “À minha justiça me apegarei e não a largarei; não me reprova a minha consciência por qualquer dia da minha vida” (27:6). Para reafirmá-la diante dos seus amigos, chegou a fazer um juramento pelo Senhor que, àquela altura, ele ainda achava lhe tinha tirado o direito e amargurado a sua alma (27:2), não sabendo que estava sendo testado por Satanás. Apesar disso, Jó ainda tinha o Senhor como o seu Deus, numa demonstração de fé que permanece firme na tempestade.

Consulta Bibliográfica

BÍBLIA VIDA NOVA.

São Paulo: Vida Nova, 1992.

HEAVENOR, E.S.P. Jó, In O Novo Comentário da Bíblia. 2ª ed. Vol. II

São Paulo: Vida Nova, 1963.

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