“A CHEGADA A JERUSALÉM” (Marcos 11)
O salmo 24, no versículo 9, convida: “levantai, ó portas, as vossas cabeças, levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória.” Será sobre essa entrada do Rei da Glória em Jerusalém, que nos uniremos em torno do capítulo 11 de Marcos.
A entrada de Jesus na cidade de Jerusalém foi predita em Zacarias 14:4, onde lemos: “naquele dia estarão os seus discípulos sobre o Monte das Oliveiras, que está defronte de Jerusalém para o oriente; o Monte das Oliveiras será fendido pelo meio, para o oriente e para o ocidente, e haverá um vale muito grande; metade do monte se apartará para o norte, e a outra metade para o sul.” Josefo, historiador judeu do primeiro século, declarou que o Messias apareceria ali no tempo do fim.
O evangelista Marcos nos apresentou a entrada de Jesus em Jerusalém como o cumprimento de Zacarias 9:9, quando profetizou: “alegra-te muito, ó filha de Sião, exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde montado em jumento, numa jumentinha cria de jumenta.” Os reis terrenos entravam em cavalos brancos, seguidos de guerreiros, este nosso Rei não.
As pessoas, no momento em que Jesus entrou na cidade que o iria crucificar, estenderam suas roupas, folhas que bem podem ter sido palmas. Estender roupas era um tributo reservado para os reis. Talvez por isso, clamassem: Hosana!, palavra que significa: salva agora!
Os estudiosos do texto bíblico afirmam que a frase, também presente em Salmos 118: 25 e 26 provavelmente era um hino cantado pelos peregrinos em caminho para as festas que aconteciam em Jerusalém. O hino fala da certeza da libertação que Deus concederia a seu povo: “Hosana nas alturas” é uma expressão de adoração.
Marcos não faz menção a qualquer atuação dos soldados romanos, que talvez estivessem apenas observando a cena, mas sem intervir nela. A entrada da cidade, então, foi aberta e sem qualquer restrição. Jesus, o humilde Rei de Deus, entrou na cidade em paz, mas com poder que pertence a todo aquele que mantém uma relação correta com Deus, acompanhado dos discípulos, os que mais tarde seriam revestidos do mesmo poder que nEle imperava.
Após entrar na cidade, foi diretamente ao Templo, observou tudo cuidadosamente. Como fosse adiantada a hora, saiu com os discípulos para passar a noite em Betânia, a três quilômetros de Jerusalém. È maravilhoso saber que, em Jerusalém, Jesus fez somente um milagre, o que Marcos registra a partir do versículo 11.
O que aconteceu foi o seguinte: tendo fome, Jesus buscou figos em uma figueira, mas não os encontrou porque era primavera. Em Jerusalém, os figos só crescem no verão e assim a figueira não estava agindo mal, ela esperava a estação adequada para frutificar. Zangado, Jesus maldisse a figueira que logo secou, deixando os discípulos abismados. Marcos não comenta qualquer coisa adicional, e recentemente, assistindo a uma classe dirigida pelo diácono Gerson Berzins, tentando acalmar uma série de perguntas que surgiram sobre a validade da ação de Jesus, ele disse: lembremo-nos de que figueira não é gente, é uma árvore. O que Jesus estava querendo mostrar com o milagre era a necessidade de fé, elemento necessário a todo relacionamento com Deus.
Marcos, intencionalmente, coloca a narrativa do milagre entre um outro acontecimento: a limpeza do Templo. A figueira era estéril em produzir figos, o Templo, em um só juízo, consoante Oséas 9: 16 e Ezequiel 17:24.
Bom será compreendermos um pouco mais sobre o que aconteceu no Templo. No primeiro século, grande parte da atividade que existia no templo não tinha coisa alguma a ver com o propósito para o qual havia sido edificado: a oração. O juízo sobre o Templo, portanto, foi mais que um apelo à reforma: foi uma predição da destruição que se seguiria.
Os adoradores de outros países vinham ao templo e precisavam trocar a moeda estrangeira pela antiga moeda hebréia, pois somente poderiam pagar as contribuições obrigatórias na moeda local. E mais: precisavam comprar animais para o sacrifício, porque transportá-los não era fácil e nem haveria a garantia de que seriam considerados sem defeito e apropriados ao sacrifício. A corrupção comercial imperava, e os adoradores tinham que conviver com isso.
O que nos ensina a limpeza do Templo? O Dr. Raymond Brown lista seis idéias: Jesus repreendeu enfaticamente por profanação aos que eram responsáveis pelas funções do Templo. Censurou as autoridades por sua cobiça. Elas haviam convertido a Casa de Oração em “cova de ladrões”. Reafirmou a função principal do templo: local de oração e de adoração. Proclamou a palavra já profetizada por Isaías, qual seja: de que o Templo havia sido construído com o propósito de que seria uma casa e oração para todas as nações, consoante Isaías 56:7. Identificou que o mal uso do átrio dos gentios indicava uma total indiferença para ganhar os gentios para Deus. Como consequência disso, profetizou indiretamente a ruína do Templo, o que veremos no capítulo 13.
Este é um momento sério e apropriado à reflexão. Qual tem sido a atividade principal dos nossos Templos? Qual o uso que temos priorizado para eles? Estará sendo um local consagrado à evangelização, edificação dos crentes e promoção do Reino de Deus entre a sociedade próxima? O que falam os vizinhos do Templo que frequentamos sobre o grupo de pessoas que para ali acorrem? Não nos enganemos: Deus sabe o que fará com a Igreja que descuidar de sua missão proclamadora.
Ao voltarem para Jerusalém, os discípulos se assustaram ao ver a figueira completamente seca. Pedro logo achou o que dizer: “Mestre, eis que a figueira que amaldiçoaste secou.” Como resposta, Jesus falou: “Tende fé em Deus; porque em verdade vos afirmo que se alguém disser a este monte: ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se fará o que diz, assim será com ele. Por isso vos digo que tudo quando em oração pedirdes, crede que recebestes e será assim convosco.”
Essa afirmação foi imediatamente colocada à prova ao regressar ao Templo. Ele precisava estar em perfeita comunhão com Deus para resistir a toda pressão que se instalou pela expulsão dos vendedores do Templo. Assim que entrou, os sumos-sacerdotes vieram a seu encontro, acompanhados dos poderosos líderes do partido religioso: os escribas já conhecidos nossos; e por anciãos, estes laicos de famílias de alta classe social. O sinédrio, suprema coorte judia, estava composta por membros destes três grupos.
O que pediram eles a Jesus? As suas credenciais, ou melhor, a fonte da autoridade que o fez limpar o Templo. A autoridade do Sinédrio nem poderia ser comparada à de Jesus. O Sinédrio enxergava a vontade de Deus a partir de preceitos legais, Jesus a sabia por experiência de comunhão com o Pai. Uma vez mais, a religião legalista não tinha lugar para a fé. Se quisermos conhecer quem é Deus, não adianta pesquisar os muitos livros e nem consultar o que diz qualquer intelectual. Só a fé conduz o homem a Deus. Só a fé produz frutos. O que for diferente disso, está fadado à morte, assim como aconteceu com a figueira.
Que tenhamos diante de nós esta valiosa advertência: “tende fé em Deus.”



Comentários