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A MISSÃO DO CRISTO (João 4 e 5)

O leitor que tem acompanhado esta série de estudos já deve ter observado que desde o início as lições fazem referência, de uma forma ou de outra, à missão que Jesus veio cumprir na terra. O assunto vem se repetindo, porém de forma crescente, cada vez mais amplo e mais profundo. Nesta oportunidade, surge como tema do estudo: A Missão do Cristo.

 

Além dos textos em que Jesus fez referência direta à sua missão, valendo-se de expressões como “o Pai me enviou” (5:36), “para isso vim ao mundo” (18:37), as situações diárias e acontecimentos eventuais foram transformados em oportunidades para que Ele fosse revelando aos seus ouvintes quem Ele era e o que veio fazer.

 

Foi em circunstâncias assim que Jesus trouxe à luz ensinamentos de profundo significado, duas delas escolhidas para a nossa meditação neste momento.

 

Tendo conhecimento de que os fariseus ouviram falar sobre o ressentimento que ameaçou se instalar entre os discípulos de João, talvez enciumados em saber que os discípulos de Jesus também estavam batizando e atraindo maior número de seguidores, Jesus decidiu deixar a Judeia e voltar à Galileia. Possivelmente, pretendia evitar que o movimento crescente em torno de sua Pessoa viesse a provocar a hostilidade dos fariseus. A decisão de Jesus, em si, expressa um ensinamento a ser observado e um exemplo a ser seguido: evitar polêmicas desnecessárias e possíveis desavenças, porque elas são potencialmente destrutivas aos relacionamentos, quase sempre causando mágoas e sofrimentos aos envolvidos.

 

O caminho da Judeia para a Galileia levava o viajante a passar por Samaria. Jesus percorreu esse trajeto e o texto bíblico ressalta o fato, dizendo que “era-lhe necessário atravessar a província de Samaria” (4:4). A ênfase desperta a atenção do leitor para o que viria a acontecer: uma situação inicialmente circunstancial se transformou em oportunidade para a revelação sobre a missão do Cristo.

 

Chegando a uma cidade samaritana chamada Sicar, nas proximidades da terra que Jacó deu a seu filho José, e situada a mais ou menos um quilômetro do poço de Jacó, Jesus sentiu-se cansado do caminho. O seu cansaço era uma evidência clara da sua humanidade e de que verdadeiramente o Verbo se fez carne e habitou entre nós (1:14). Cansado, então, sentou-se junto à fonte de Jacó, enquanto os seus discípulos saíram para comprar alimentos. Era quase a hora sexta, ou quase meio dia, de acordo com o uso do método judaico, que calculava a hora a partir do nascer do sol.

 

Foi nesse momento, enquanto Jesus se encontrava ali sozinho, que uma mulher samaritana chegou com o seu cântaro para tirar água do poço. De imediato, Jesus pede a ela que lhe dê água para beber. O pedido de Jesus causou surpresa, e com razão. A resposta da mulher, em forma de pergunta, oferece indícios de haver motivos para a estranheza e hesitação que sentiu: “Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?” (4:9).

 

Uma breve explicação esclarece os motivos de tamanha desconfiança: havia forte hostilidade entre judeus e samaritanos, nascida da divisão do povo de Israel em dois reinos, do norte e do sul, cujos desdobramentos resultaram em sérias diferenças religiosas, intensificadas posteriormente pela construção de um templo samaritano rival no monte Gerizim. Por duvidarem da pureza religiosa e cerimonial dos samaritanos, os judeus se recusavam até mesmo a fazer uso comum de utensílios.

 

Devido a esse contexto, o pedido de Jesus era surpreendente demais: beber da água que seria tirada do poço com o jarro de uma mulher samaritana. Muitos elementos estavam presentes em uma única ação: Jesus, um judeu, dirige a palavra a uma mulher, que é samaritana, e ainda lhe pede para beber da água de seu jarro. Quanta simpatia e aceitação inesperadas Jesus demonstrou para com alguém de Samaria!

 

Não fosse isso suficiente para suscitar a perplexidade daquela mulher, com esse gesto Jesus deu início a um diálogo ainda mais surpreendente, conduzindo o assunto para a esfera espiritual. Ele passou a falar de alguma coisa que ela necessitava e que somente Ele poderia dar: a água viva, que dá vida eterna e satisfação plena à alma, atendendo aos anseios mais profundos do homem. Essa água é dom de Deus e representa a salvação que Jesus dá, permitindo que todos os que estão em Cristo vivam a realidade da promessa de Isaías 12:3: “E vós com alegria tirareis águas das fontes de salvação”.

 

Para levá-la a uma compreensão espiritual mais ampla e profunda, Jesus despertou nela a consciência moral, tocando em assuntos pessoais, tanto quanto deu a ela explicações inéditas a respeito da verdadeira adoração, aquela que agrada a Deus e que o Senhor deseja receber dos verdadeiros adoradores: a adoração que é feita em espírito e em verdade porque “Deus é Espírito, e importa que os que O adoram O adorem em espírito e em verdade (4:24). O tempo para tal adoração havia chegado.

 

A mulher samaritana, assim chamada porque o seu nome não foi revelado, entendeu que estava diante de alguém cujo conhecimento não provinha da perspicácia natural, mas tinha origem sobrenatural: “Senhor, vejo que és profeta” (4:19). A partir desse momento, o diálogo se encaminhou para um ponto que deu a ela a oportunidade privilegiada de ouvir, de forma particular e diretamente dos lábios do Senhor Jesus, a revelação de que Ele era o Cristo, o Messias esperado: “Eu o sou, eu que falo contigo” (4:26).  Ela estava diante do Salvador, em solene audiência.

 

O resultado dessa experiência com Cristo foi que ela, de imediato, se tornou uma missionária do Evangelho, porque deixou o seu cântaro ali mesmo e saiu pela cidade chamando outros para virem conhecer a Jesus. Que diálogo abençoado e frutífero!

 

Algum tempo depois, Jesus voltou a Jerusalém por ocasião de uma das festas dos judeus, havendo muitas pessoas reunidas na cidade. Dirigiu-se ao tanque chamado Betesda, cujo significado é ‘Casa de Misericórdia’. O tanque ficava localizado próximo à Porta das Ovelhas, citada três vezes no livro de Neemias ((3:1; 3:32; 12:39).

 

Junto ao tanque de Betesda havia uma grande multidão reunida. Eram pessoas sofridas, algumas talvez desesperadas, que aguardavam uma oportunidade de cura. Havia uma crença de que a água do tanque adquiria propriedades medicinais quando movimentada, o que acontecia de período em período, e que a primeira pessoa a entrar no tanque após o movimento da água seria curada de qualquer doença que tivesse.

 

Entre essas pessoas se encontrava um homem, paralítico, que há trinta e oito anos esperava que alguém se apiedasse dele e o ajudasse a entrar no tanque, a tempo de ser o primeiro a fazê-lo após a água ter sido agitada. Jesus o encontrou e foi direto ao ponto principal de sua necessidade. Perguntou-lhe: “Queres ficar são?” (5:6). Ele não precisaria mais esperar pelo benefício da água possivelmente terapêutica. Bastava ter fé para obedecer a ordem de Jesus e a cura desejada seria obtida: “Levanta-te, toma tua cama, e anda”(5:8). Foi o que aconteceu. Ele confiou e obedeceu, levantou e andou.

 

A sua cura, no entanto, gerou uma controvérsia com as autoridades religiosas, porque o milagre foi realizado no sábado. Para os judeus, era uma séria violação da lei.

 

Para Jesus, que tinha o perfeito entendimento sobre o significado do mandamento da observância do sábado, foi mais uma oportunidade para falar sobre a missão do Cristo, declarando-se Filho de Deus e igual ao Pai. Entre as declarações que fez, Jesus disse aos judeus: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam. E não quereis vir a mim para terdes vida.” (5:39-40)

 

O convite de Jesus ainda está em vigor. Venha a Cristo e receba dele a vida eterna.

 

 

Consulta Bibliográfica

 

BRUCE, F. F. João, Introdução e Comentário.

São Paulo: Edições Vida Nova, 1987

 

DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia

São Paulo: Vida Nova, 1995.

 

MACLEOD, A. J. João, in O Novo Comentário da Bíblia. Vol. III

São Paulo: Edições Vida Nova, 1963.

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