ASPECTOS POSITIVOS DO SOFRIMENTO
- Ana Maria Suman Gomes

- há 2 dias
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Meditamos sobre o primeiro discurso de Eliú, o mais jovem dos amigos de Jó e o último a fazer uso da palavra. Eliú profere quatro discursos e, enquanto fala, Jó permanece em silêncio.
O primeiro discurso tratou de mencionar alguns modos como Deus se comunica com o homem, a forma como se revela a quem deseja ouvir a sua vontade. Foi um discurso duro e muito altivo, pois Eliú o proferiu com ares de arrogância, o que é muito comum nos jovens. Também para ele, Deus, teria uma palavra mais tarde, e, curiosamente, se utilizaria do próprio Jó para interceder a Deus por ele.
Nosso estudo de hoje tem como base os capítulos 35 a 37, mas, para fins deste texto, basear-nos-emos nos primeiros vinte e dois versículos do capítulo 36. Uma curiosidade interessante é que o capítulo 36 divide-se em duas partes bem distintas não somente no que diz respeito ao tom do discurso mas também com relação ao conteúdo. A primeira parte, composta dos primeiros 21 versículos continua os temas dos capítulos anteriores. A segunda, apregoa o poder de Deus em ações da natureza.
A aspereza com que Eliú vinha discursando é agora abrandada. O texto de hoje é uma declaração mais madura e atraente da teologia ortodoxa do que qualquer outra que se acha no restante do livro. Aqui vemos Eliú exaltando a grandeza e providência de Deus, exortando Jó a reconhecer o propósito divino para seus sofrimentos e a juntar-se a outras pessoas no louvor a Deus.
Em seu discurso, Eliú volta a proclamar a justiça de Deus que supera a compreensão humana e consiste principalmente em salvar o pobre e derrotar o injusto. Deus quer sempre a vida e usa de todos os meios para educar o homem na justiça, que é o caminho para a vida. Entre esses meios está o sofrimento, que é uma chamada de atenção para que a pessoa descubra os próprios erros ou orgulho e se converta.
O apelo, então, é para que se aprenda com o sofrimento. O versículo de número 18 diz o seguinte: “guarda-te, pois, de que a ira não te induza a escarnecer, nem te desvie a grande quantia do resgate”. Poderíamos entendê-lo da seguinte forma: não deixe que a grandeza de suas aflições o impeça de aceitá-las. Submeta-se a tudo quanto Deus exigir. Que grande desafio Eliú lançava sobre o nosso patriarca sofredor. Como é fácil opinar, e quão difícil é viver vitoriosamente!
Jó, apela Eliú, contemple o poder e a misericórdia de Deus! A sua providência é digna da confiança do homem: é implacavelmente adversa aos ímpios e vigilantemente atenta aos justos. Vamos conferir: eis que Deus é mui grande, contudo a ninguém despreza; é grande na força da sua compreensão. Não poupa a vida aos perversos, mas faz justiça aos aflitos. Dos justos não tira os seus olhos; antes com os reis no trono os assenta para sempre, e são exaltados.” (versículos de 5 a 7).
Mesmo quando a angústia os rodeia, continua Eliú, o divino Mestre os conduz a um lugar espaçoso onde eles reconhecem a transgressão que os arrastara à angústia e a ela renunciam: Abre-lhes também os ouvidos para a instrução, e manda-lhes que se convertam da iniquidade (v.10).
As aflições convocam o justo a uma luta espiritual mais ardente e assim constituem meio eficiente de livramento do pecado e suas consequências e desaparecem quando seu propósito específico se realiza: Se o ouvirem e o servirem, acabarão seus dias em felicidade e os seus anos em delícias, registra o versículo 11.
Deus envia aflições para testar e treinar pessoas. A ênfase recai mais uma vez no poder irresistível de Deus, apoiado na força da sua compreensão. Os justos sobre os quais Deus mantém o seu olhar não são necessariamente impecáveis diante de Deus, prova disso é que Deus espera que se arrependam. Os justos são os aflitos, injustiçados pelos homens, e, portanto, com direito a apelar ao socorro divino.
A lição de Eliú parece ser que esta ajuda não surge imediatamente: Deus observa como a vítima agirá diante da adversidade. Eliú desenvolve o tema dos dois caminhos colocados diante de cada homem e não parece ter certeza de que uma pessoa justa possa chegar a ficar presa em grilhões. O aprisionamento, que pretende ser uma disciplina corretiva, visa a despertar uma consciência de pecado. Por isso, a partir do versículo 16 e até o de número 25 ele tenta dar ao sofrimento de Jó uma interpretação simplória, qual seja: Jó estava, apenas, recebendo o castigo que merecia e não adiantava gritar por socorro. Alguns intérpretes acrescentam: tu não instruías o processo dos ímpios e não defendias o direito do órfão.
Da interpretação dos caminhos de Deus Eliú passa ao elogio do Seu poder e Sabedoria. Seu primeiro pronunciamento foi: “Deus é maior do que o homem” Repete-o agora, no versículo 26, dizendo: “eis que Deus é grande e não o podemos compreender; o número dos seus anos não se pode calcular.” Eliú, na realidade, conduz o argumento a partir da justiça de Deus para a Sua sabedoria, usando o poder de Deus como ponte. Seus discursos terminam com nota de tranquilidade inspiradora de reverência. A tempestade acalmou-se e a luz do sol vem raiando através das nuvens que se dissipam: por isso os homens O temem, certamente todos os sábios de coração O temem, exclama Eliú. Tendo completado o seu raciocínio, Eliú retira-se de cena, de certa forma preparando os corações de Jó e amigos para o encontro com o Senhor do Universo.
Há aspectos positivos no sofrimento? Eliú acenava para a instrução como um desses aspectos. Em todos os tipos de ação de Deus para com o homem há ensinamentos e há propósito. Caberá ao homem, entendendo a soberania de Deus na condução da vida, encontrar a resposta para a sua dor.
Eliú analisou os caminhos de Deus e, ao fazê-lo, prostrou-se entusiasmado com o seu grande poder. Mais tarde, já nos dias do Novo Testamento, encontramo-nos com o apóstolo Paulo, sob a dinastia da graça, igualmente entusiasmado com o Deus de poder: Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro lhe deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele e por meio dele e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória, eternamente, Amém. Romanos 11: 33 a 36.


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