COMO DEUS SE RELACIONA COM O HOMEM
- Ana Maria Suman Gomes

- 9 de mar.
- 5 min de leitura
Encerramos nossa reflexão no último programa olhando para o silêncio de Jó. Após haver dialogado enfaticamente com os amigos que vieram para lhe trazer conforto, Jó entende ser o momento de calar: decide não retrucar mais, não responder a qualquer provocação. Vimos, a partir desse destaque, que muitas vezes o caminho para receber a revelação de Deus para qualquer circunstância que porventura estejamos enfrentando é precisamente esse: calar diante do Deus Todo Poderoso, aquele que é capaz de dar à vida do crente o rumo que melhor o conduzirá ao porto desejado. Foi também essa a experiência do salmista e rei Davi quando registrou, no conhecido salmo 23, as seguintes palavras: O Senhor é o meu pastor: nada me faltará. Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso.”
Nosso estudo de hoje é baseado no capítulo 33 do livro sob estudo e apresenta-nos a estreia de Eliú, mais um dos que assistiam ao sofrimento de Jó. Até agora estava mudo, somente prestando atenção ao que os demais falavam diante do patriarca. No entanto, enquanto ouvia, irava-se. Isso mesmo, ouvinte, o quadro que temos diante de nós é o de um jovem inteligente, cheio de si, arrogante, presunçoso e irado. Fazendo então um paralelo ao que dissemos sobre o silêncio de Jó, vemos claramente na atitude de Eliú que nem todo silêncio é saudável. Eliú encontrava-se em perfeito silêncio, mas sua atitude não era, decididamente, a de quem desejava aprender: ele, enquanto quieto, julgava, criticava, fazia comparações, irava-se.
Assim, ao se apresentar ao debate, usa algum tempo do seu discurso externando aquilo que já lhe sufocava o interior. Ele vem para denunciar a atitude de Jó em relação ao sofrimento. Fora a incapacidade que os outros mostraram para responder às dúvidas e temores de Jó que o forçaram a entrar na controvérsia. Ele estava, portanto, irado pela teimosia de Jó em continuar levantando o olhar inquiridor ao céu e irado contra os amigos por não conseguirem refutar os argumentos do patriarca.
Ele estivera quieto em respeito aos cabelos brancos dos demais presentes e também à vontade de Deus que se manifestava tanto a jovens quanto a homens idosos. Manter o silêncio agora, no entanto, para Eliú, seria ter mais respeito a homens do que a Deus. Por isso, optou por apresentar as suas considerações acerca do mal que afligia a Jó.
A apologia inicial fora dirigida aos amigos. Agora, apresentando sua resposta diante dos protestos de Jó, Eliú dirige-lhe um desafio (versículos de 1 a 7). A seguir, passa a relembrar certas declarações de Jó e surge, nos dezoito últimos versículos do capítulo, com a sua própria resposta ao que entendia explicar os sofrimentos de Jó.
Ao tomar a palavra, Eliú declara serem as suas afirmações sinceras e reconhece publicamente estar no mesmo plano de Jó, em se tratando de dependência de Deus. Seria como se estivesse dizendo: sou para Deus o que tu és. Em seguida, trata de relembrar aos presentes a posição sustentada por Jó durante todo aquele tempo, faz um resumo da teimosia de Jó em continuar alegando a sua inocência. Também ele não entendera o problema essencial que Jó experimentava, e, por isso, discorria facilmente, apregoando: não tens razão quando dizes não ter pecado que justificasse todo aquele mal.
Suas palavras seguintes tentam identificar o modo como Deus se relaciona e como se revela ao homem. Até a época de Eliú, e por todos os dias do Velho Testamento, Deus falava com o seu povo por meio de diversos instrumentos especiais que foram substituídos, nos dias do Novo Testamento, pela revelação de Jesus Cristo. Foi o que o autor da epístola aos Hebreus quis nos ensinar, quando afirmou: Havendo Deus, outrora, falado muitas vezes e de muitas maneiras aos pais pelos profetas, nestes últimos dias falou-nos pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Hebreus 1:1e2.
Assim, Eliú menciona os anjos, os sonhos e a doença como formas das quais Deus se utilizava para comunicar a sua vontade ao homem. No íntimo dessas revelações encontrava-se o princípio e o propósito da graça divina. Os homens vivem sob a sombra dos portadores da morte enviados por Deus em razão do pecado humano, dizia ele, mas de um modo, de dois modos, a graça intervém. Confira: Deus fala de um modo, de dois modos, mas o homem não atenta para isso: em sonho ou em visão de noite, quando cai sono profundo sobre os homens, quando adormecem na cama, então lhes abre os ouvidos e lhes sela a sua instrução. E continua: Eis que tudo isso é obra de Deus, duas e três vezes para com o homem. Jó 33: 14-16 e 29.
Prossegue Eliú considerando que algumas vezes uma revelação especial se introduz como advertência para evitar o mal e assim livrar o homem de suas consequências desastrosas. Outras vezes, a revelação vem na undécima hora, quando a maldição de um castigo conduziu o homem à beira do abismo. Ali, exatamente ali, se observa a restauração das bênçãos da justiça de Deus: Então Deus terá misericórdia dele e dirá ao anjo: redime-o para que não desça à cova; achei resgate. Jó 33: 24.
Sim, meu leitor, Eliú viu o castigo no contexto redentivo, computado e governado pelo princípio da graça soberana. Estava errado? Claro que não. O problema estava na interpretação que fazia dos males de Jó, pois nós sabemos que embora tudo aquilo fosse correto, certamente não era o caso na vida de Jó.
O discurso de Eliú não se resume a este capítulo, ele prossegue. E, ao analisar-lhe o conteúdo, percebemos que o orador não se preocupava com Jó como pessoa, mas o usa como teste para os seus argumentos. Na sua ira, esqueceu-se ele também de ouvir a voz de Deus, em pedir-lhe que o ajudasse na arte de consolar.
Meu amigo, podemos estudar este texto de várias maneiras e aplicá-lo a diversas situações da nossa vida. Deixemos que o Espírito Santo nos conduza à essência dos pensamentos aqui veiculados, dando-nos a certeza de que Deus efetivamente fala conosco, Ele nos procura, Ele deseja comungar com o nosso coração, conduzir-nos a uma vida vitoriosa.
Jó estava sendo provado, testado. Deus também desejava falar-lhe ao coração. Para isso, preciso foi que Jó ousasse apresentar a Deus as suas queixas, as suas perplexidades, mas também entendesse que precisava se aquietar, se calar diante da soberania e majestade do Criador. Veremos isso nos próximos estudos. Fiquemos, por ora, com a convicção de que Deus deseja se revelar a nós. Que nossos olhos e ouvidos se abram para entender a mensagem.


Deus de alguma forma, nos mostra que sempre estamos errados!