MILAGRES (Parte 2)

Minha fé em Deus não deve depender de milagres


Os milagres de Jesus apresentados nos evangelhos são muitos, de tipos variados e o próprio texto nos informa que houve muitas outras intervenções do Mestre que sequer foram registradas. Mas, os milagres não começaram com Jesus e o relato bíblico anterior à vinda de Jesus, o Antigo Testamento está repleto deles. Um dos mais deslumbrantes é o dos três amigos de Daniel, salvos miraculosamente da fornalha ardente registrado no livro de Daniel, capítulo 3, do qual leio os versos 14 a 18:


14Nabucodonosor lhes disse: “É verdade, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que vocês não prestam culto aos meus deuses nem adoram a imagem de ouro que mandei erguer?

15Pois agora, quando vocês ouvirem o som da trombeta, do pífaro, da cítara, da harpa, do saltério, da flauta dupla e de toda espécie de música, se vocês se dispuserem a prostrar-se em terra e a adorar a imagem que eu fiz, será melhor para vocês. Mas, se não a adorarem, serão imediatamente atirados numa fornalha em chamas. E que deus poderá livrá-los das minhas mãos?”

16Sadraque, Mesaque e Abede-Nego responderam ao rei: “Ó Nabucodonosor, não precisamos defender-nos diante de ti.

17Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das tuas mãos, ó rei.

18Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos teus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer”.


Continuando a pensar em milagres, faz-se necessário explorar a relação entre eles e a fé. Mais sobre isto deverá ser considerado ao longo destas reflexões, mas agora o objetivo é nos perguntar o quanto a nossa fé depende da ocorrência de milagres. Será que quanto mais milagres presenciarmos ou tivermos sido por eles beneficiados maior deveria ser a nossa fé em Deus? Será o caso que somos espiritualmente fracos ou imaturos porque não fomos agraciados e tão pouco testemunhamos milagres inquestionáveis, daqueles que deixam uma marca inesquecível? Em ultima instância, a nossa fé, a nossa vida espiritual depende da ocorrência de milagres que diretamente presenciamos ou fomos favorecidos? Enquanto não tivermos certo número de experiências de milagres para relatar como testemunho nosso não poderemos dizer que somos de fato pessoas de fé?


Este é um questionamento bastante perturbador, pois mexe nos alicerces da nossa vivência religiosa. Dia a dia somos bombardeados com testemunhos de milagres ocorridos com outros e repetidos à exaustão pelas grandes mídias religiosas. E aí a dúvida se instala: Por que isto não ocorre comigo? Há até um hino tradicional que toca na questão ao cantar: “Maravilhas soberanas outros povos têm, vem derrama as mesmas bênçãos sobre nós também.” Se não tivermos um entendimento firme e biblicamente sólido, vamos ser arrastados pela enxurrada de ofertas de milagreiros e de casas de milagres que tão afoitamente propagandeiam a realização de milagres em seus arraiais, como se tivessem uma procuração de exclusividade de Deus para a realização deles.


O texto lido, do livro do profeta Daniel foi escolhido para nos instruir a respeito. Mas não é o milagre em si que se deseja destacar; é a atitude dos três jovens fiéis, diante das circunstâncias que provocaram suas sentenças de morte na fornalha incandescente. O texto lido ao início diz que o rei Nabucodonozor foi complacente e deu aos jovens uma oportunidade para arrependerem-se da sua rebeldia à ordem real de adorar o ídolo de ouro. Se fizessem isso receberiam indultos de seus castigos, pois, dizia o rei, não há Deus capaz de livrar vocês das minhas mãos. Neste exato ponto, na resposta dos jovens ao rei, fica eternizada como a atitude correta que deve nortear todo fiel:


“Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das tuas mãos, ó rei. Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos teus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer”. [Daniel 3.17-18]


De acordo com boa parte dos ensinos sobre milagres que vemos por aí, a confiança desses jovens em Deus seria classificada como fraca, porque eles admitiram a hipótese de que Deus poderia não fazer nada por eles e eles perecerem. A desculpa mais usada pelos muitos milagreiros em atividade quando um milagre pedido não se realiza é que o suplicante não teve fé suficiente. Assim, para esses milagreiros, só por pensar que Deus poderia não livrá-los, os três jovens automaticamente estariam invalidando o milagre desejado. No caso deles, o milagre aconteceu, mas o que de fato devemos guardar deste relato é que a fé dos três jovens não estava condicionada e nem dependia da realização de um milagre que inclusive significava a preservação de suas vidas.


Voltamos à questão de hoje. Se não presenciamos milagres significativos; se os nossos pedidos de intervenção de Deus não foram respondidos positivamente de modo algum deve significar que somos crentes de segunda classe, imaturos, infantis ou não persistentes. Significa de fato outra coisa mais relevante: Deus pode estar provando a nossa fé e buscando seu fortalecimento para torná-la uma fé sincera e eterna em vez de interesseira e descompromissada. Mais ainda, devemos considerar que o fato de não termos o milagre pedido, não significa que outros milagres não ocorreram, aqueles que sequer percebemos, mas graciosa e discretamente Deus nos concede.


A questão que foi aqui tentativamente abordada já mereceu muito consideração e não apenas nos círculos religiosos. Há romances, por exemplo, que foram escritos a este respeito. Dois deles são bastante renomados: um é do grande novelista americano Graham Greene “O poder e a glória”; o outro é do contista japonês ShusakuEndo “Silêncio”. Em situações históricas diferentes ambos tratam de religiosos cristãos sendo perseguidos de morte por causa da sua fé. Estes religiosos viram fugitivos e precisam viver escondidos, sempre questionando Deus sobre o porquê dele não agir para livrá-los, já que eles estavam a serviço da Igreja de Deus e junto com eles centenas de fiéis estavam sendo coagidos a renegar a fé, sob ameaça de morte. Os personagens desses romances nunca obtiveram a ação de Deus em seu favor e acabaram como mártires. Tanto estes quando todos os outros mártires cristãos da história nos lembram que a soberania e a glória de Deus é muito maior que as nossas vidas; muito mais esplendorosa do que qualquer milagre de libertação que possa nos beneficiar. Assim, são também um convite sério para que deixemos de focar nos milagres que gostaríamos de ver e focar em Deus que, quer opere milagres, quer não opere, deseja a nossa fé e a nossa confiança nele, tanto na vida como na morte.


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