MILAGRES (Parte 3)

Só são milagres os atos efetivos de intervenção de Deus


O livro de Eclesiastes não contém relatos de milagres, mas na sua busca pelo sentido da vida acaba nos esclarecendo a respeito. Leio o capítulo nove de Eclesiastes, trecho dos versos 1 a 4 e também versos 11 e 12.


1 Refleti nisso tudo e cheguei à conclusão de que os justos e os sábios, e aquilo que eles fazem, estão nas mãos de Deus. O que os espera, seja amor ou ódio, ninguém sabe.

2 Todos partilham um destino comum: o justo e o ímpio, o bom e o mau, o puro e o impuro, o que oferece sacrifícios e o que não os oferece. O que acontece com o homem bom, acontece com o pecador; o que acontece com quem faz juramentos, acontece com quem teme fazê-los.

3 Este é o mal que há em tudo o que acontece debaixo do sol: o destino de todos é o mesmo. O coração dos homens, além do mais, está cheio de maldade e de loucura durante toda a vida; e por fim eles se juntarão aos mortos.

4 Quem está entre os vivos tem esperança; até um cachorro vivo é melhor do que um leão morto!

. . .

11 Percebi ainda outra coisa debaixo do sol:

Os velozes nem sempre vencem a corrida;

os fortes nem sempre triunfam na guerra;

os sábios nem sempre têm comida;

os prudentes nem sempre são ricos;

os instruídos nem sempre têm prestígio;

pois o tempo e o acaso afetam a todos.

12 Além do mais, ninguém sabe quando virá a sua hora:

Assim como os peixes são apanhados numa rede fatal

e os pássaros são pegos numa armadilha,

também os homens são enredados

pelos tempos de desgraça

que caem inesperadamente sobre eles.


No trato das questões difíceis e desafiadoras que cercam o assunto milagres, devemos hoje, com coragem, abordar mais um, que poderia ser sumarizado na expressão: a vulgarização dos milagres.


Há uma tendência entre muitos cristãos de atribuir à vontade de Deus tudo o que acontece, seja bom, seja ruim. Sem duvida temos uma base bíblica sólida para tal ao reconhecer que Deus é a fonte de tudo. No entanto, o que está errado nessa tendência é usá-la para mascarar responsabilidades pessoais e a consequência do acaso. Um motorista é imprudente e causa um acidente com vítimas pessoais: nenhum dos envolvidos pode alegar que aquilo aconteceu porque Deus quis ou porque Deus agiu ou porque Deus permitiu. A jovem se engravida sem ter planejado ter um filho: ela não pode alegar como desculpa que aquilo aconteceu porque Deus quis. É claro que Deus quis, pois foi ele que criou a mulher e a dotou do dom da maternidade. Mas na circunstância específica de uma gravidez, a decisão humana tem papel fundamental.


A sabedoria do livro de Eclesiastes é um dos textos bíblicos que nos ensinam a não atribuir a Deus aquilo que não é consequência de atos diretos seus.O texto lido é um veemente esclarecimento sobre as casualidades da vida.


Nem tudo é totalmente claro ou totalmente escuro; nem sempre o justo é feliz e o ímpio é castigado, o inverso ocorre muito. E tantas coisas acontecem com as pessoas, sem que seja da direta responsabilidade de Deus.


Todos estes pensamentos conduzem à necessidade de cuidadosamente considerar o que são realmente milagres e o que são decorrências de decisões humanas e o que são coincidências ou casualidades. Na maior parte das vezes não temos como avaliar corretamente; fica uma dúvida se um fato foi decorrente da ação de Deus ou não. Talvez o estágio da nossa vida espiritual nos incline para creditar mais a Deus ou creditar mais a fatores humanos ou de contingências. Devemos, porém, questionar até onde a nossa responsabilidade contribuiu para desfecho de um acontecimento, sem se esquecer delevar em conta que Deus pode agir através do acaso e Deus pode agir orientando a nossa mente. Tudo é possível para Deus, mas o ser humano tem coparticipação naquilo que lhe acontece. Não devemos vulgarizar os atos de Deus; não devemos vulgarizar milagres.


Há mais alguns aspectos que a vulgarização dos milagres nos induz a pensar. Será que Deus agiria prejudicando outra pessoa por um milagre em nosso favor? Exemplificando, temos um companheiro de trabalho ou um vizinho de quem gostaríamos de nos livrar, seja pelas atitudes dele com relação a nós, seja porque realmente nós dois não nos entendemos. É correto suplicar que Deus nos livre desta pessoa? E, se de fato a pessoa sair da nossa área, devemos agradecer a Deus pelo milagre ocorrido? Qualquer resposta a tais questões é tão dúbia quanto tantas outras respostas envolvendo milagres. Há, porém, textos bíblicos que nos ajudam a pensar a respeito e nos abrem a porta para um entendimento mais correto. Consideremos este ensino de Jesus como relatado em Mateus 5, versos 43 a 45:


Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’.

Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem,

para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos.


Como filhos do Pai nosso que está nos céus não devemos desejar nenhum mal a qualquer semelhante nosso, mas apenas amá-los.


Creio que já está claro quão complexo é considerar o tema milagres. Há tantas conexões e derivações e são tantos os pontos para os quais não conseguimos ter uma resposta precisa e certa. Isto só aumenta a seriedade com que devemos abordar o assunto. Não podemos menosprezá-lo; não podemos vulgarizá-lo.


Devemos considerar os milagres na sua dimensão correta de vislumbres da glória de Deus; devemos temer e tremer diante frente a eles. Devemos com discernimento espiritual reconhecê-los quando verdadeiros, rejeitá-los quando falsos, e ter o direito da dúvida quando eles não forem claros para nós.


Sobretudo, e qualquer que seja a situação devemos nos colocar na dependência de Deus e louvá-lo e agradecer-lhe pelo que eles significam para nós.


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