O CAMINHO PARA A CRUZ (Marcos 14)

O capítulo 14 de Marcos é muito triste, se pensarmos no que Jesus fez e no que sofreu. Mas pode ser alegre, se tivermos em mente o plano de redenção, agora cumprido e vitorioso. Faz parte do nosso estudo a análise daquele momento quando, suando sangue, Jesus se deparou com a tentação maior: a escolha entre deixar de lado o seu ministério ou fazer a vontade do Pai até o fim.


Em escala muito menor, diariamente temos esta escolha a fazer: seguir o caminho estreito, mas que conduz à vida ou nos acomodarmos ao que todos consideram comum, menos Deus. Possa o Senhor nos ajudar a compreender bem o que Ele espera de nós.


A história começa com um ato de honra. Jesus estava fazendo uma refeição na casa de Simão, o leproso que havia sido curado e que vivia a alguns quilômetros de Jerusalém. Uma mulher se aproximou de Jesus, enquanto ele ali estava. Segundo o costume judeu, jamais poderia ter entrado para estar na presença de homens, mas ela o fez porque as suas razões eram muito fortes: desejava homenagear a quem a havia libertado do pecado e lhe devolvido a alegria de viver.


Sobre a cabeça de Jesus, derramou um óleo muito caro, cujo preço era equivalente ao valor de 300 dias de salário de um operário e por isso era apropriado para reis, não para amigos. Jesus compreendeu aquele gesto, que aos olhos de tantos foi desperdício e permitiu que a história se perpetuasse porque ela partia de premissas essenciais: estava repleta de gratidão para com Jesus: uma vida que recebeu graciosamente a libertação, merecia que Jesus também a recebesse naquela hora. Outro destaque é que Jesus havia desperdiçado amor para com ela, agora ela queria desperdiçar tudo para Jesus. A terceira razão é que ela ungiu o Corpo de Cristo para a sepultura, embora não o soubesse naquele momento. Este foi o último ato de amor que Jesus recebeu, e quem o praticou foi justamente esta agradecida mulher. O LEITOR tem oferecidos atos de amor para Jesus?


Marcos continua seu relato e menciona a razão do que aconteceu com Judas, o que ficaria na história como o homem que traiu a Jesus, sendo um dos doze. Lucas explicou o assunto dizendo que “entrou satanás em Judas”. Mateus declarou que a cobiça foi a razão para a traição. O que os sumos-sacerdotes e escribas não haviam podido realizar, Judas estava disposto a fazê-lo, e para tanto ganharia dinheiro. Confira em Mateus 26:14e15.


Era chegado o momento da última refeição com os doze. A partir daquela ceia, nunca mais os doze estiveram com Jesus para uma refeição naqueles moldes. Jesus havia providenciado os detalhes para aquela refeição. No tempo da Páscoa, a população em Jerusalém aumentava demais e os habitantes da cidade eram impelidos a hospedar os que chegavam para as comemorações da Páscoa, uma das mais importantes observâncias dos judeus, que recordavam a saída do povo de Israel do Egito.


O local reservado para a refeição precisava estar limpo de qualquer impureza e o pão era assado sem fermento. O leitor entenderá bem as razões se ler Êxodo 12:1-28. É bem provável que a liturgia observada por Jesus e seus discípulos tenha sido semelhante aos registros que temos do segundo século desta era. Os salmos 113 e 114 eram cantados durante toda a celebração, e os de 115 a 118, no final.


Mais tarde, o apóstolo Paulo declarou que Jesus liberta o homem da Lei, do Pecado e da Morte, como lemos em Romanos 7 e 8. A iminente morte de Jesus uniu Jesus com o Deus de Israel e também com os seus discípulos, em um pacto selado com seu próprio sangue, ressalta o Dr. Raymond Brown.


Estando a vida de Jesus nas mãos do Pai, ele sabia que seria traído. Não temos nenhum registro de medo ou ansiedade com relação a isso. O gesto de Judas foi mais grave ainda porque ele se sentou à mesa com Jesus e comemorou a festa da Páscoa na companhia de quem já havia decidido entregar. Judas cumpria a tradição, o ritual, mas seu coração nada tinha em comum com aquilo que a Páscoa representava. Quantas e quantas vezes nós nos damos conta de que estamos cumprindo rotinas, sem pensar no que fazemos. Abrimos a boca em hinos que sabemos de cor, mas deixamos de lado o cuidado com o que as palavras que cantamos significam.


A festa representava claramente a salvação que Deus providenciou para o povo escravo do Faraó Egípcio, e a refeição com Jesus deveria ser recordada como a amizade de Deus com Israel, incluindo Judas. No entanto, Judas viveu uma mentira. Disse Jesus: um de vós há de me trair. Serei eu? Cheios de tristeza os discípulos se puseram a perguntar, inconformados com eles mesmos.

Jesus partiu o pão, o abençoou e o deu aos discípulos: tomai, este é o meu corpo, disse ele. Indicava, assim, que o pão que comiam seria, dali para sempre, o símbolo da vida que ele estava disposto a dar pelos seus. O mesmo aconteceu com o cálice de vinho, inaugurando um novo pacto, um novo princípio, uma oferta nova, fruto da graça firmada pelo sacrifício do Filho do Homem. Esse novo pacto uniria os cristãos com Deus e com Jesus e não somente Deus e os judeus. Também este seria firmado com o sangue do Filho de Deus, que sofreria em lugar de todos nós. Meu leitor, qual a sua relação com o sangue de Jesus?


Partindo dali, Jesus e seus discípulos se dirigiram ao Monte das Oliveiras, cerca de um quilômetro de distância. Escolheu os mesmos que o viram transfigurados, a saber: Pedro, Tiago e João e os exortou: “a minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai. E adiantando-se um pouco, prostrou-se em terra, e orava para que, se possível, lhe fosse poupada aquela hora.” Marcos 14:34 e 35.


Neste relato, temos a evidência de algumas realidades na vida do Filho do Homem que, agora colocadas em situação de tensão, se tornavam evidentes: a da oração na vida de Jesus, do sofrimento de Jesus, do pedido de Jesus, da relação dEle com seu Pai, da preocupação com os seus discípulos, do propósito de Jesus em seguir o caminho da morte e do sofrimento e, felizmente, também a realidade da vitória de Jesus.


Em seguida, a partir do versículo 43, vemos Judas cumprindo a sua palavra de trair a Jesus, o que o fez por meio de um beijo diante dos representantes do Sinédrio. Muitos têm perguntado a razão da necessidade de ser identificado, uma vez que era pessoa conhecida. Há algumas ideias: o local poderia estar muito escuro, estando Jesus oculto pelas árvores; havia muita gente por ali, em função da festa. Seja qual tenha sido a razão, foi assim que Jesus foi entregue aos que O levaram para o caminho da morte.


Não poderemos nos deter nos episódios seguintes, que Marcos nos conta a partir do versículo 53. Jesus foi preso e levado até a casa de Caifás, sumo-sacerdote. Saduceus e anciãos também tinham lugar no Sinédrio. Ao que tudo indica, José de Arimatéia, o que mais tarde pediu o corpo de Jesus para sepultá-lo, era um desses anciãos ou leigos membros do Sinédrio.


Foi isolado do apoio dos discípulos, dos amigos, até da multidão que o havia acompanhado. Estava sozinho, exceto pela presença distante de Simão Pedro, que, tendo sido identificado como discípulo de Jesus pela forma como falava, por três vezes o negou. Depois de fazê-lo, deparou-se com o penetrante olhar de Jesus e saiu chorando. Agora, definitivamente Jesus estava só.

O querido leitor vai precisar estudar o restante do capítulo para saber como Marcos registrou este episódio. De uma coisa estamos certos: não foi nada fácil seguir o plano de Deus até o fim. Mas se hoje estamos refletindo a respeito disso, é porque Ele o fez, e venceu e tornou possível a nós, tão pequenos, podermos nos dirigir a Deus em oração dizendo: Pai. Sim, por meio de Jesus, chegamos ao Pai. Custou um alto preço, que estejamos sempre gratos e O honrando com a nossa vida.

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