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O SOFRIMENTO HUMANO E A JUSTIÇA DE DEUS (Jó 6 e 7)

Após tomarmos conhecimento da permissão que Deus deu a Satanás para afligir a Jó, nos deparamos com dois discursos que o patriarca fizera. O primeiro, deu-se quando, após olhar para seus amigos mudos diante dele, começou a entender que a morte lhe seria mais promissora do que a vida, uma vez que pensara haver perdido o afeto do seu Deus, o Criador de todas as coisas a quem amava e reverenciava.

O segundo discurso foi proferido em resposta a Elifaz, o primeiro amigo a falar. Este amigo havia insinuado que havia pecado oculto em Jó, razão esta que seria a explicação para os males que vinha enfrentando. Em sua indignação, Jó olha para a sua vida e nada enxerga que pudesse ocasionar aqueles dissabores e isso declara, em alta voz, para quem estivesse disposto a ouvir.

Nosso estudo de hoje será dividido em duas partes, como o anterior. A primeira delas tratará do discurso que Bildade, (outro dos companheiros de Jó), fez, na tentativa de explicar o fenômeno desagradável que vinha acontecendo. O que ele faz é limitar a justiça de Deus ao comportamento humano, e nisto errou grandemente.

Bildade era homem disposto a enumerar as causas para o sofrimento dos outros. Com certeza o amado leitor conhecerá pessoas que, sem mais nem menos, aparecem em momentos de grande dor e sugerem receitas prontas para os demais seguirem. São aqueles dogmas inflexíveis, utilizados pelas pessoas que os adaptam aos diferentes tipos de sofrimento humano. Esta prática deve ser desaconselhada em nosso meio.

Nos sete primeiros versos do seu discurso, registrados no capítulo 8, Bildade exorta Jó a curvar-se perante a sabedoria da tradição. Defende a absoluta justiça de Deus, entendida pelo binômio: o bem ceifará o bem e o mal ceifará o mal.

Os doze versículos que se seguem convocam o patriarca a aprender do passado, a partir do exame da tradição. Nos três versículos finais, Bildade conclui o seu pensamento, afirmando categoricamente como o fazem todos aqueles que insistem em entender mais do que Deus: “Eis que Deus não rejeita ao íntegro, nem toma pela mão os malfeitores.”

Em seu discurso, Bildade aparece com dois defeitos: falta-lhe empatia para com o amigo e estava enredado nos males da tradição. O passado o absorvia de tal modo que o impedia de compreender que Jó procurava uma experiência mais rica e mais inteligente do que tudo aquilo que ele pudera conhecer.

Sim, Bildade era um moralista. Na sua teologia simples tudo pode ser explicado em termos de dois tipos de homem: o inculpável e o secretamente perverso. Embora pareçam extremamente iguais, Deus faz distinção entre eles ao dar prosperidade a um e destruição ao outro. O problema está em que Bildade estava completamente equivocado, à luz do que estudamos nos dois capítulos iniciais. Ele deixara de considerar a possibilidade do perdão. Para ele, nada poderia vir entre o pecado e suas conseqüências, a única alternativa seria ser puro e reto.

Também para este discurso Jó tinha uma resposta. Aliás, a esta altura o amado leitor já verificou que as respostas de Jó se constituem em riqueza, pois nos falam de um homem que cria em Deus de forma inabalável. Tão grande era a sua fé que ansiava pelo restabelecimento da comunhão que pensara haver perdido, mais do que qualquer outra coisa.

“Então Jó respondeu e disse: na verdade sei que assim é; porque como pode o homem ser justo para com Deus?” O Deus de Jó é grande demais para ser manipulado. Desencorajado por um senso renovado da sua própria fraqueza, expressa o anseio por um árbitro entre ele e Deus. Sim, estando a fé de Jó em seu ponto mais baixo, surge nesta forma negativa do lamento o conceito do Mediador que mais tarde viria a se tornar para Jó uma convicção positiva. À falta de um árbitro, Jó treme diante do Onipotente, que parece decidido a aterrorizá-lo até o silêncio e declará-lo culpado..

Quando o próprio Deus e ninguém menos responder a Jó, somente então ficará convicto de que sua oração foi ouvida. Não são dúvidas quanto à equidade de Deus que causam a ansiedade em Jó. São as conseqüências pavorosas de semelhante exposição direta à presença divina que o enchem de terror.

Ao entrar no capítulo 10 e sem que haja qualquer interrupção no discurso, Jó passa a se dirigir diretamente a Deus e continua em oração até o final. Ele era um homem doente e não conseguia acreditar que Deus o havia criado para que acabasse em semelhante estado. Com certeza, pensa ele, Deus teria alguma coisa melhor em mente.

Por isso, com a bravata do desespero Jó discute com o Juiz que o condena. Apela à natureza do Deus que conhecia contra o Deus fantástico que contende com ele. Apela ao orgulho profissional de Deus como Juiz e à sua condição de Criador. Ele é onisciente e onipotente, não estará sujeito às limitações humanas. Será que o Criador destrói a criatura com a qual despendeu tanta perícia no processo de criação?

O julgamento imaginário de Deus termina quando a realidade da dor e da ignomínia reafirmam-se na consciência de Jó. O Deus fantástico prevaleceu e Jó muda, abruptamente, do apelo à lamúria e ao lamento. Ao ler o texto, o leitor certamente compreenderá melhor o que se passava com Jó e observará que em nenhum momento ele faz o pedido que acharíamos óbvio: Jó não pede a Deus que sua doença seja curada. Ele apreende a transcendência de Deus.

Meu leitor, que estudo precioso o livro de Jó nos proporciona! Quanta coisa poderíamos destacar nestes momentos finais! Fiquemos, portanto, com uma reflexão de ordem prática: em vez de apresentar respostas absolutas para as questões que a vida nos proporciona, estejamos em sintonia com o Senhor da História para que Ele nos mostre a forma dinâmica com que Se relaciona conosco. Foi o que fez de Jó um vitorioso.

 
 
 

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