O SOFRIMENTO HUMANO E A SANTIDADE DE DEUS
- Ana Maria Suman Gomes

- há 3 dias
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Deixamos Jó, na última semana, fazendo um discurso melancólico. O patriarca ansiava a morte, pois acreditava que ela lhe interromperia o sofrimento. (Jó 3)
Ao prosseguir, encontramos nossa reflexão com a atuação de Elifaz, um dos amigos que estava visitando Jó, com o objetivo de consolá-lo. O texto bíblico está registrado nos capítulos 4 e 5 do livro de Jó
.Elifaz apresenta-se como o mais compreensivo dos três amigos Ele não deixa de mostrar-lhe aquilo que considera seus erros, mas, quando o faz, não deixa de lado a postura de amigo fiel e dedicado. Aliás, não é exatamente este o papel de um amigo?
Elifaz surge na história como alguém que, de fato, tem uma experiência com Deus, mas falha em algo muito importante: ele não reconhece a extraordinária submissão a Deus tantas vezes demonstrada por Jó.
Por isso, seu discurso é rico em acusações: como pode, pergunta ele, um ser frágil e imperfeito homem mortal, atrever-se a criticar as ações do seu criador? Como ousa o homem, continua ele, na sua fragilidade e efemeridade, na sua imperfeita busca de sabedoria, insinuar a sua completa justiça, a sua intocável dignidade?
Na busca de resposta, Elifaz tenta interpretar, explicar o sofrimento de Jó e nesse afã, faz uma breve defesa da justiça de Deus, acenando para a possibilidade de que Jó estivesse sendo disciplinado por Deus por pecados não declarados. A aflição não surgiria do nada, defende ele. Alguma Jó havia aprontado.
Introduz-se, aqui, o tema da santidade de Deus, tão bem desenvolvido no Velho Testamento. O que Elifaz estava querendo dizer é que, aquele que guarda pecados no coração jamais poderá se dirigir a Deus, o que seria ultrajar a Sua santidade. Raciocinando desta forma, interpreta o sofrimento de Jó como sinal de desqualificação para estar na presença de Deus.
Jó sentiu-se profundamente triste com as palavras de Elifaz. Seu próximo discurso, desta feita registrado nos capítulos 6 e 7, nos fala a respeito disso e nos mostra o arrependimento de Jó por palavras que ele mesmo considerara impensadas. O leitor deve ler com cuidado este precioso discurso do patriarca.
Embora concordasse com Elifaz em alguns aspectos essenciais como, por exemplo, o da soberania de Deus, o pensamento de Jó está em um nível diferente do dos amigos. Tendo aparentemente a mesma expressão formal, estão unidos ao discorrer sobre o caráter de Deus e a respeito do modo como Deus lida com as pessoas. No entanto, o teor do discurso de Elifaz entristeceu a Jó e a sua resposta passa a ser uma tremenda explosão emocional. Ele se defende da insinuação de que haveria alguma falha na sua vida que necessitasse de correção. Insiste que as suas palavras desenfreadas poderiam ser justificadas pela intensidade do seu sofrimento, da sua dor, da sua miséria que seria incomensurável como a areia do mar.
O que ele está é aterrorizado com a possibilidade de que Deus tenha-se esquecido dele e o abandonado. Por isso, depois de se dirigir aos amigos, volta-se, em espírito para o Criador e é a Ele que dirige suas palavras mais significativas:
“Estou farto da minha vida; não quero viver para sempre. Deixa-me, pois, porque os meus dias são um sopro. Que é o homem, para que tanto o estimes e ponhas nele o teu cuidado e a cada manhã o visites e cada momento o ponhas `a prova? Se pequei, que mal te fiz a ti, ó Espreitador dos homens? Por que te fizeste de mim um alvo, para que a mim mesmo me seja pesado? Por que não perdoas a minha transgressão, não tiras a minha iniquidade? Pois agora me deitarei no pó, e , se me buscas, já não serei.”
Olhando para a sua vida Jó não reconhecia falta alguma que pudesse ter ocasionado toda aquela tragédia. Sim, ele era pecador, tanto isso reconhecia que adotava a prática de oferecer holocaustos por si e por seus filhos. Mas, embora pecador, efetivamente sua consciência não o acusava de delito algum que pudesse merecer o castigo do seu Deus.
Por isso, porque assim acreditava, insiste em que a morte seria a solução para ele, pois sentia-se sem forças, abandonado. “Oh!, exclama ele, se a minha queixa de fato pesasse e contra ela, numa balança, se pusesse a minha miséria!”
A esta altura convém lembrar ao leitor que Jó e seus amigos ignoravam a causa do seu sofrimento. Nós a conhecemos, visto que lemos os capítulos iniciais do livro de Jó. Mas aquele servo de Deus desconhecia a origem da sua dor. Assim, embora a crença da época apontasse para somente duas opções: atitude certa, favor de Deus; atitude errada, castigo de Deus, havia mais uma possibilidade, a de que o sofrimento de Jó tivesse uma outra finalidade, qual seja, a de provar a efetividade da sua fé no Criador. Classificando em duas categorias as pessoas, o que estavam fazendo era limitar a Deus e Jó merecia que Deus lhe ensinasse algumas coisas a Seu respeito que poderiam transformar-lhe a vida.
A seguir, estudaremos mais um aspecto da história de Jó, quando seu outro amigo aparece em cena e conversa com ele a respeito da justiça de Deus.


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