SER PASTOR EM TEMPOS DE GUERRA

Assim como eu, inúmeros colegas que exercem o ministério pastoral sofrem uma pressão imensa, muitas vezes sem saber o que fazer.

Eu posso falar de minha própria experiência.

Estou muito longe da Ucrânia. Vivo no Brasil, em outro continente. Mas recebo informações ininterruptas dos tristes acontecimentos naquela região do mundo e choro, sofro, lamento, me desespero, oro. Há um misto de sentimentos. Às vezes de indignação por causa de líderes que se julgam deuses. Às vezes de impotência, por não sermos capazes de fazer absolutamente nada para deter os tanques. Às vezes de consciência pesada, pois outros estão sofrendo tanto, com fome, com sede, com bombas, com famílias separadas, com viagens sem fim, com ferimentos e gente morta ao redor, e eu estou aqui, num lugar completamente diferente daquele, sem poder manifestar alguma solidariedade que realmente faça diferença. Nestas horas de comoção muitas instituições pedem dinheiro, seja por causas humanitárias, missionárias ou de guerra. Contudo, infelizmente, nem sabemos se realmente isto chegará nos destinos necessários e na quantidade urgente de que precisam.

A vida segue, a igreja necessita de púlpito comprometido, as famílias precisam de afeto, visita, cuidados, os novos convertidos de orientação, e o coração sente a dor daqueles que estão debaixo de bombas, de tanques de guerra, de mísseis balísticos, de perseguição maligna. Há gente que quer discutir, que quer tomar partido, que quer justificar o injustificável. Outros lamentam, mas dizem que cada um que enfrente os seus próprios problemas. E quando olhamos a nossa própria casa, o nosso lar, os nossos filhos, vemos o quanto somos abençoados por tê-los debaixo de um teto acolhedor, de uma terra que não está sob ataque militar e com a possibilidade de suprimento de cada necessidade.

O que fazer ante a batalha de lá e as necessidades de cá? O que fazer, sem saltar da responsabilidade pastoral para acompanhar a guerra?

Eu alisto 7 coisas que estou fazendo, para ter paz com o meu próprio coração e para não enlouquecer no meio de sentimentos tão antagônicos que invadem a mente (ansiedade, desespero, dor, revolta, medo, tristeza, preocupação com o futuro dos próprios filhos, pavor das bombas atômicas):

1) UM ENCONTRO DIÁRIO EM ORAÇÃO - Sem este encontro não há condições de enfrentar o dia. Nesse encontro eu choro copiosamente diante de Deus. Ofereço-lhe a vida novamente, para que Ele faça de mim o que bem quiser, conquanto eu esteja no centro de Sua vontade. Intercedo pelos países em guerra. Intercedo pelos governantes. Intercedo pelos que estão tendo o país invadido; pelas senhoras, pelos velhos, pelas crianças, pelos pais, pelos homens que não podem deixar a terra, pois estão debaixo da lei de guerra. Eu oro para que tenham comida, tenham água, tenham transporte, tenham proteção, oro para que não sejam separados de suas famílias. E oro para que Deus detenha esse terror, que coloque um ponto final no governo destes tiranos e de seus apoiadores, trazendo um mínimo de paz e convívio mundial. Mas também sei que estamos prestes ao retorno do Senhor, e peço que eu, que minha família, a igreja a quem sirvo e os crentes em geral estejamos preparados para a vinda de Cristo.

2) CUMPRIR COM AS RESPONSABILIDADES - A guerra está em andamento, mas as nossas responsabilidades continuam presentes. Não podemos parar o trabalho, os cuidados familiares, os tratamentos de saúde, os estudos bíblicos, os cultos, os compromissos profissionais, os cuidados com o lar, as relações públicas, os estudos, os preparos, as viagens. A vida tem que continuar, ainda que o façamos com o coração na mão.

3) FALAR DE CRISTO - Somos responsáveis em proclamar o Santo Evangelho de Jesus Cristo. Deus coloca pessoas em nossos caminhos. Devemos usar de todas as oportunidades e falarmos do amor de Deus, da perdição do homem, do plano de salvação, do sacrifício de Cristo na cruz, de sua morte e ressurreição e de sua vinda gloriosa logo mais. Somos evangelistas, em última análise.

4) DAR AOS FILHOS A CHANCE DE BONS PAIS E CHEFES DE FAMÍLIA - O fato do mundo estar em guerra e dos problemas nacionais com a carestia aumentando não nos tira o dever de dar aos nossos filhos a grande oportunidade de ver em seus pais pessoas que sabem atravessar as crises e vencê-las, mesmo que sejam grandes o bastante para não acabarem logo. Quantos ministros do evangelho criaram filhos com grande maestria durante a Segunda Guerra Mundial, nos anos de 35 a 45, e foram muito bem sucedidos! Chegou a nossa vez!

5) TER ESPERANÇA - Diferentemente daqueles que não creem, somos pessoas cheias de esperança. A nossa esperança não está nos líderes deste mundo tenebroso, nem nas armas, nem no poder do homem, mas na soberania de Deus. Durante muitos séculos guerras aconteceram e foram superadas, homens acharam-se deuses e morreram, apodrecendo nas sepulturas. Se Jesus voltar agora, então estaremos no Apocalipse. Se não voltar, então seremos mais uma geração a enfrentar a dor da guerra, seja ela presencial ou apenas nos dissabores das consequências econômico-sociais. Temos que ter a estrutura suficiente para vivermos esperançosos. Hoje está melhor do que ontem e amanhã há de ser melhor do que hoje!

6) AMARMOS A IGREJA - O povo de Deus colocado sobre os nossos cuidados não pode ser privado da boa comida da Palavra, das nossas súplicas e orações, da nossa dedicação incondicional porque não estamos psicologicamente em nosso melhor momento. Nas horas das crises é que os melhores homens são forjados. Também no ministério pastoral os bons pastores se destacam, atravessando o mar de dificuldades com paciência e com todo o fruto do Espírito Santo. Boas mensagens, pelo menos o melhor que pudermos fazer, bom atendimento da membresia, boa administração dos negócios do Senhor e absoluta simpatia e amabilidade para com os servos do Senhor que estão sob os nossos cuidados, atos que farão o nosso ministério ser amado e ser alvo das orações do rebanho do Senhor.

7) PRONTIDÃO PARA TUDO - Devemos estar prontos para tudo. Prontos para a prosperidade, mas também prontos para as crises. Prontos para o crescimento numérico, mas igualmente prontos para a estagnação ou a diminuição do número de membros. Prontos para a festa na apresentação de bebês, mas prontos para ministrar aos enlutados nos sepultamentos. Prontos para dias de muita saúde, mas prontos para as enfermidades também. Prontos para recebermos atos e manifestações de amor, mas prontos para aguentarmos o isolamento e a injustiça. Em tudo e em todas as circunstâncias Deus dará graça, capacidade, força e sabedoria para fazermos o melhor para Ele e para os que estiverem ao nosso cuidado.

Enfim, estas reflexões eu as fiz para mim mesmo, julgando ser útil reparti-las com o povo de Deus, principalmente com os ministros do evangelho que me lêem sempre.

Muito obrigado e que Deus a todos nos abençoe.

Amém.

Pr. Wagner Antonio de Araújo

Igreja Batista em Barbosa - Estado de São Paulo - Brasil

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